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“O Cânone Interno do Imperador Amarelo” (Nei Jing) nas palavras do próprio Mestre Wang Bing

Olá amigos!

Estando próximo o início do “Curso de Nei Jing“, desejei escrever um pouco em relação à importância que possui esta obra para os nossos estudos de Medicina Chinesa e ao fantástico que o texto é em si. No entanto, pensei que ninguém era melhor para descrever o texto que o próprio editor da dinastia Tang, o Mestre Wang Bing, compilador da edição mais conhecida e respeitada do texto.

O médico Wang Bing, oficial durante a dinastia Tang, recebeu a alcunha de respeito Qǐ Xuán Zǐ.

No ano 762 publicou a mais importante obra da história da Medicina Chinesa, o “Cânone Interior do Imperador Amarelo” (Huang Di Nei Jing que a seguir resumirei simplesmente como “Nei Jing”).

Num momento em que a tendência se centra em conhecer o “como”, mas ignorando os “porquês” (fenómeno atemporal), Wang Bing procura recuperar a essência da Medicina Chinesa, dedicando 12 anos da sua vida à investigação do Nei Jing.

Foi deplorável o estado em que Wang Bing encontrou o texto, pelo que o seu trabalho consistiu em compilar, emendar e escrever inúmeros comentários para cada parágrafo desta obra. Durante este trabalho, Wang Bing visitou muitas pessoas ilustres na Medicina Chinesa, unindo assim diferentes peças do puzzle. No entanto, o facto de Wang Bing ter recebido uma edição secreta do texto do Sábio “Zhang Zhong Jing”, marcou o culminar da sua investigação, esclarecendo a estrutura conceitual do texto e o corpo de ideias nele contido.

É interessante que o próprio Zhang Zhong Jing, um dos personagens mais relevantes da medicina chinesa, cita este texto no seu prefácio do “Shang Han Za Bing Lun”, indicando-o como parte da educação médica que ele recebeu.

Wang Bing, menciona a forma como este texto deve ser estudado e a tremenda importância no estudo do caminho da medicina e no seu prefácio parece profetizar a transcendência do seu livro através do tempo com as seguintes palavras:

“…De modo a que os aprendizes não cometam erros e os estudantes pensem luminosamente, propagando o Caminho supremo. Desta forma o som dos seus emblemas será eterno e depois de 1000 anos a infinita compaixão e benevolência dos grandiosos sábios será conhecida…

Há mais de 1200 anos Wang Bing referiu: “embora os anos passassem e as dinastias tenham sido reformadas repetidamente, o ensino e estudo (deste Cânone) ainda sobrevive”. É interessante o facto de ainda hoje o texto ser de estudo obrigatório nas faculdades de Medicina Chinesa na China.

Wang Bing consciente da dificuldade gerada da difícil semântica da obra, escreveu uma série de textos dedicados a explicar a teoria do Nei Jing, dedicando-se especialmente a disciplina dos “5 Ciclos e os 6 Qì” (wu yun liu qi). Os textos são: “Xuan Zhu Mi Yu, “Tian Yuan Yu Ce e “Yuan He Ji Yong Jing”.

Pessoalmente, tenho usufruído dos dois primeiros textos no estudo da teoria do Nei Jing, sendo cofres maravilhosos, cheios de pérolas de Medicina Chinesa. O terceiro texto indica as prescrições e a aplicação dos medicamentos segundo os 5 Ciclos e os 6 Qì.


De seguida, apresento um resumo do prefácio de Wang Bing que considero de grande beleza para quem estuda com paixão esta maravilhosa Medicina Chinesa.

A tradução que apresento, é parte do meu humilde trabalho de tradução do “Nei Jing” comentado por Wang Bing, no qual trabalho há anos e que espero publicar brevemente.


A libertação das ataduras e a eliminação das dificuldades para completar o genuíno e guiar o  qì; resgatar a benevolência e a longevidade da escuridão e ter sucesso ao ajudar os débeis na recuperação da sua saúde, não pode conseguir-se sem o Caminho dos 3 Sábios…

…Embora os anos passassem e as dinastias tenham sido reformadas repetidamente, o ensino e estudo (deste Cânone) ainda sobrevive. Mas, temendo (o seu ensino) na pessoa errada, ocasionalmente (o Cânone) foi escondido. Por este motivo o “Sétimo Volume” foi oculto pelos mestres, pelo que na atualidade é aceite que são só 8 volumes.

No entanto, é um texto escrito em tiras de bambu, o seus significados são imensos, as suas teorias são misteriosas e de profundo interesse.

(O Cânone) divide as imagens do céu e da terra, organiza os estados de yin e yang, indica as causas das mudanças e transformações e cita os sinais da morte e da vida.

(No texto) o distante e o próximo unem-se sem conflito, o obscuro e o evidente concordam sem restrições.

Ao examinar as suas palavras, a profundidade que possuem pode ser comprovada nos factos sem haver erro. Honestamente pode-se dizer que é um modelo do Caminho supremo.

Se possui talento natural para compreender os mistérios deste conhecimento maravilhoso e os seus esquemas completos, embora seja uma pessoa com inteligência inata, ainda precisará de explicações dos clássicos. Ainda não há ninguém que para caminhar não precise dum caminho e que para sair não precise duma porta.

Foque os seus pensamentos e estude o essencial, explore as subtilezas ocultas no profundo, o seu conhecimento obterá o genuíno e o essencial, (como quem) olha um boi sem (se concentrar) no todo. Por isto agirá com sucesso, como se fosse assistido secretamente por fantasmas e espíritos, assim, de tempos em tempos, aparecerão (indivíduos) excepcionais e de renome mundial. Assim, (no período) Zhou existiu o venerável Qín, (no período) Wei existiu a sua excelência Zhāng e a sua excelência Huá, todos eles obtiveram o Caminho da excelência. Todos renovaram diariamente as suas aplicações e ajudaram grandemente a humanidade a florescer sucessivamente como flores e folhas, existindo concordância entre a reputação e os factos. Devendo-se aos seus estudos mas também à dádiva celestial.

(Eu) Bīng, desde a minha juventude admirei o Caminho e sempre gostei do cultivo da vida. Afortunadamente encontrei o Cânone genuíno, sendo um modelo, como a tartaruga ou o espelho.

…Se deseja subir o Monte Dài, como irá fazê-lo sem um caminho? Se deseja visitar Fú Sāng, não é possível sem um barco. Pelo que investiguei com diligência e esmero, reuni-me com várias pessoas e depois de 12 anos cheguei aos princípios essenciais, inquiri até conseguir ver o que estava de errado até satisfazer profundamente o que por longo tempo estava no meu coração.

Estive algum tempo no Salão do meu Mestre Guō Zǐ Zhāi, de quem recebi uma edição secreta do mestre ancestral, o venerável Zhāng (Zhòng Jǐng). A escrita era evidentemente clara e o significado dos seus princípios, completo. Ao examiná-lo em detalhe, as dúvidas dissolveram-se como o gelo.

Temo que (estes textos) se dispersem entre o conhecimento superficial, cortando assim a dádiva dos mestres, consequentemente escrevi comentários, para que seja utilizado na transmissão sem corrupção (deste ensinamento). Combinei-o com o antigo volume oculto, unindo-os em  81 capítulos e em 24 volumes, formando um todo. Desejo que investigando a cauda, se compreenda a cabeça, e buscando nos comentários se compreenda o Cânone e se abra aos principiantes e os princípios supremos sejam propagados….

…A linguagem destes raciocínios é secreta e densa, com uma narrativa difícil de ser discutida, (pelo qual) escrevi separadamente (o livro) “As Pérolas do Profundo e Misterioso” para explicar o Caminho (do Nei Jing).

(O meu) desejo é clarificar os éditos dos sábios, difundindo livremente as suas palavras misteriosas, para que sejam ordenadas como as constelações penduradas no alto, onde as (constelações) Kui e Zhang não se confundem, (como) um profundo manancial limpo e cristalino, onde as escamas e as carapaças possam ser distinguidas. Desta forma o Imperador e os seus subordinados, não perecerão prematuramente e os bárbaros e chineses poderão observar uma vida longa.

De modo a que os aprendizes não cometam erros e os estudantes pensem luminosamente, propagando o Caminho supremo, desta forma o som dos seus emblemas será eterno e depois de 1000 anos a infinita compaixão e benevolência dos grandiosos sábios será conhecida.


Gostaram?

Espero que seja um estímulo para continuarmos a estudar a Medicina Chinesa com dedicação, espírito crítico, paixão e alegria!

Larry Ibarra

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O Capítulo Mais Importante do Livro Mais Importante de Medicina Chinesa?

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” (黃帝內經 Huáng dì nèi jīng) nunca deixa de impressionar-nos.

O texto, com aproximadamente 2500 anos, está dividido em duas partes: “As Perguntas Elementares” e “O Eixo do Espírito“, cada uma destas partes possui 81 capítulos. O estilo de escrita deste livro segue a forma tradicional de pergunta e resposta.

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” é considerado o texto mais importante da Medicina Chinesa, e um rico contentor dos princípios da Medicina Chinesa. Durante milénios foi o pilar central do estudo desta disciplina e ainda hoje é um texto de estudo obrigatório nas universidades de Medicina Chinesa na China.

Ao começar a leitura da secção “As Perguntas Elementares”, somos confrontados com o primeiro capítulo chamado “Discussão do Céu e do Genuíno na Antiguidade Remota” (上古天真論 Shàng gǔ tiān zhēn lùn), que também podemos traduzir como “Discussão do Genuíno e da Natureza na Antiguidade Remota”.

O texto começa com uma pergunta do Imperador Amarelo. Uma pergunta tão atual que facilmente poderia ser feita hoje a um especialista em saúde:

“ [O Imperador] perguntou ao Mestre Celestial: ouvi que na antiguidade remota as primaveras e os outonos das pessoas ultrapassavam os cem anos, sem declínio nas suas atividades. Na atualidade as pessoas declinam em todas as suas atividades na metade dos cem anos. A geração atual é diferente? Ou é uma falta na conduta das pessoas?”

O sábio Mestre Daoísta (Taoísta) Qí Bó entrega uma resposta que resume os princípios para alcançar a longevidade, mas também explica a razão do declínio prematuro nas pessoas:

“Qí Bó respondeu: as pessoas da antiguidade remota, conheciam o Caminho (Dào), os princípios de yin e yáng e estavam em harmonia com as artes dos números. Comiam e bebiam com restrições. Eram regulares nas suas vidas diárias. Não trabalhavam absurdamente até o esgotamento, por esta razão podiam [manter] os corpos e os espíritos completos, usando totalmente os seus anos [entregues pelo] céu, estimando-os em mais de cem.

As pessoas da atualidade não são assim. [Para eles] o álcool é como xarope. O absurdo é o regular e entram nas suas recâmaras bêbados, esgotando a suas essências pelo desejo, consumindo e dispersando assim o [qì] genuíno. Desconhecem como manter-se plenos e não guiam os seus espíritos oportunamente, satisfazem rapidamente [os desejos] das suas mentes, contrariando uma vida feliz. As suas vidas diárias carecem de regularidade, por esta razão declinam na metade dos cem anos.

Os ensinamentos dos sábios da antiguidade remota, sempre referiram evitar oportunamente o vazio perverso e o vento pernicioso, e a acalmar placidamente no vazio, para que o qì genuíno seguindo [este estado] guardasse no interior a essência e o espírito. Como [poderão] chegar as doenças assim?

Se a mente se mantém desocupada e com poucos desejos, o coração estará em paz e sem temores. Se há trabalho físico, mas sem esgotamento, o qì seguirá em concordância e cada um dos desejos que se seguem, poderão ser alcançados. Por esta razão estar-se-á satisfeito com os alimentos, não se importará com as suas roupas e contentar-se-á com o simples, sem se impressionar com as altas ou baixas aparências [sociais] e por conseguinte as pessoas chamar-lhe-ão simples (natural). Não serão capazes de esgotar os seus olhos com vícios e desejos, e a obscenidade perversa não poderá perturbar as suas mentes. O estúpido e o sábio, o virtuoso e o não virtuoso não temerão nada, devido a estarem unidos no Caminho (Dào). Por conseguinte a sua idade poderá contar-se em cem anos sem declínio nas suas atividades e as suas virtudes serão completas e sem perigos.”

O texto continua, mas não me canso de ler e reler esta parte, nem de surpreender-me de como a humanidade, com os seus temores e desejos, mudou tão pouco em mais de vinte séculos… nem parece que foi escrito há mais de 2000 anos!

Traduzi-o e quis partilhar convosco.

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