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O Terceiro Grande Colateral

Sim, o terceiro grande colateral.

Estamos habituados a ouvir a teoria dos quinze vasos dos colaterais ou redes (絡 Luò).

A literatura refere 12 vasos colaterais associados aos 12 vasos dos canais (經脈 Jīng Mài) que o “Cânone Interno do Imperador Amarelo” refere como “separações” (別 Bié), ou seja ramos que se afastam do próprio canal principal ou regular.

Além disso, são referidos dois vasos colaterais que se separam dos vasos dos canais extraordinários Rèn 任 e   督, são os vasos colaterais Wěi Yì e Cháng Qiáng, respectivamente.

Finalmente o texto indica o “Grande Colateral do Tài Yīn do pé”, chamado Dà Bāo, que à semelhança dos outros colaterais, possui uma patologia própria.

O capítulo 18 do Su Wen, refere-se um segundo grande colateral: “O Grande Colateral do Estômago”, chamado “Xū Lǐ“.

No entanto, o capítulo 10 do Ling Shu, refere mais um grande colateral, completando uma lista de 17 Colaterais principais no corpo.

A continuação, traduzo algumas pequenas excertos do capítulo 10, onde se menciona o “Grande Colateral de Yáng Míng e Shào Yáng da mão“, formando parte da rede venosa dorsal da mão e do antebraço. Este membro da família, menos conhecido, carece duma descrição de doença própria, mas é o fundamento da utilização das cavidades extraordinárias “Os Oito Perversos” (八邪 Bā Xié).

Boa leitura!

Captura de ecrã 2016-05-11, às 16.39.44

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Os 4 Mares da Medicina Chinesa – Parte 1

Um de tantos belos capítulos do Ling Shu Jing 靈樞經, um dos textos fundamentais de Medicina Chinesa, com 2000 anos de história.

Nesta primeira parte, começa a discussão entre o Imperador Amarelo e o Mestre Qí Bó.

Captura de ecrã 2016-04-13, às 13.19.36

Esta imagem é parte do texto original, e permite-nos ver as características dos textos clássicos chineses: escrita vertical descendente e de direita para esquerda e, obviamente, ausência total de pontuação moderna (pontos e vírgulas).

A continuação, a minha tradução da primeira parte do diálogo:

Captura de ecrã 2016-04-13, às 13.20.22

 

A amargura do coração

Navegando na Internet, encontrei o seguinte artigo do site “Jornalciencia.com”:

Descoberta: cientistas ficam espantados ao encontrar receptores de sabor amargo no coração!

Podem ler o artigo completo no seguinte link:

http://www.jornalciencia.com/saude/corpo/4796-descoberta-cientistas-ficam-espantados-ao-encontrar-receptores-de-sabor-amargo-no-coracao.html#.Vk3mzI3GpB5.facebook

Esta informação (se for verídica…) confirma mais uma parte da teoria dos cinco sabores da Medicina Chinesa.

O texto mais importante da Medicina Chinesa, com mais 2300 anos de existência, o “Cânone Interno do Imperador Amarelo” (Huang Di Nei Jing), especificamente nas “Perguntas Elementares” (Su Wen) com 81 capítulos refere:

Capítulo 5 “Grande Discussão das Correspondências e Imagens de Yin e Yang” (陰陽應象大論) do texto Suwen indica:

A direção Sul gera o calor, o calor gera o fogo, o fogo gera o amargo e o amargo gera o coração

「南方生熱熱生火火生苦苦生心」

No capítulo 23 “Proclamação da Compreensão dos Cinco Qì” (宣明五氣)  do texto Su Wen menciona:

Quando os cinco sabores penetram, o ácido entra no fígado, o picante entra nos pulmões, o amargo entra no coração, o salgado entra nos rins e o doce entra no baço. Sendo o que chamamos: as cinco entradas

「五味所入酸入肝辛入肺苦入心鹹入腎甘入脾是謂五入」

“O Livro Completo de Jing Yue” e as Evidências Superficiais

Caros amigos,

Tenho continuado a revisar os livros que me ajudaram a compreender melhor a Medicina Chinesa e, dentro da lista, outro dos primeiros que li, foi o texto “O Livro Completo de Jǐng Yuè” (Jǐng Yuè Quán Shū). Que obra fantástica!

Cheguei até este livro através do “Cânone Classificado” (Lèi Jīng), outro livro do mesmo autor, que após um trabalho de investigação de 30 anos, organiza e comenta monumentalmente o “Cânone Interior do Imperador Amarelo” (Huáng Dì Nèi Jīng).

O autor é Zhāng Jiè Bīn (1563 – 1640), com a alcunha de respeito de Zhāng Jǐng Yuè. Um dos mestres mais importantes da dinastia Míng, que obteve o título de respeito de “Sábio da Medicina” (Yī Shèng).

Autor de 4 textos médicos, inicialmente segue os princípios da escola de pensamento médico “Yǎng Yīn Pài”, posteriormente aprofunda o seu conhecimento médico e transforma-se num dos maiores representantes da “Escola de Reforçar Aquecendo”. Quem me conhece sabe que costumo utilizar extensamente a moxa, pois uma das fontes das quais obtive muitos métodos de moxabustão, foram os textos do Mestre Zhāng Jǐng Yuè.

Ao pegar no livro, escolhi aleatoriamente uma parte dele para traduzir e o que apareceu foi uma parte do “Artigo das Evidências (1) Superficiais”, pertencente ao começo do Volume I (o texto contém 64 Volumes… o Mestre Zhāng Jǐng Yuè foi um especialista em Yi Jing (I Ching), pelo que só podia ser 64 🙂 ).

Devemos lembrar que a teoria das “Oito Cordas Guias da Rede” (Bā Gāng), constituído pelo frio e o calor, o superficial e o interno, o vazio e a plenitude e yin e yang, embora sendo uma teoria antiga, foi organizada pela primeira vez neste livro (O Livro Completo de Jǐng Yuè).

Espero que desfrutem deste pequeno excerto do artigo.

… Quando o frio perverso visita os canais e colaterais, deverá haver dor no corpo, ou contração e tensão com dor, sendo o qì perverso a desordenar o qì nutritivo, inibindo os vasos sanguíneos.

Quando o frio perverso está na superfície e há cefaleia, então há quatro canais (possivelmente envolvidos). O vaso de Tàiyáng do pé cinge-se pela nuca e a cabeça; o vaso de Yángmíng do pé ascende até ao canto da cabeça (2); o vaso de Shàoyáng ascende por ambos os ângulos e o vaso de Juéyīn do pé ascende reunindo-se no topo da cabeça, podendo todos converter-se em cefaleia. Por este motivo só Tàiyīn e Shàoyīn carecem de evidências de cefaleia.

Quando o frio perverso está na superfície e há muita aversão ao frio, se existe aversão a isto (algum fator), então deverá haver lesão por isto (algum fator). É por isto que na lesão por alimentos há aversão aos alimentos e na lesão por frio há aversão ao frio.

Quando o qì perverso está na superfície, o pulso deverá ser tenso e rápido, sendo o perverso a desordenar o qì nutritivo.

O vaso do canal Tàiyáng começa no interior do olho, ascende ao topo da cabeça e desce pela nuca, e cingindo a coluna circula até à região lombar, por isto quando o perverso está em Tàiyáng, deverá haver aversão ao frio, febre e simultaneamente dor na cabeça e nuca, com rigidez na coluna lombar ou dor nos joelhos.

O vaso do canal Yangmíng começa debaixo do olho, segue pela face e o nariz e circula pelo tórax e o abdómen. Por isto quando o perverso está em Yángmíng, deverá haver febre e ligeira aversão ao frio e simultaneamente dor nos olhos, nariz seco e insónia.

Shàoyáng é o canal metade superficial e metade interno. O seu vaso contorna a orelha anterior e posteriormente e desde o “Poço do Ombro” (3) desde até a região costal. Por isto quando o perverso está em Shàoyáng, deverá haver febre e simultaneamente hipoacusia e dor hipocondria, com [sabor] amargo na boca e vómito, ou alternância de frio e de calor.

Nas anteriores evidências superficiais dos três yáng, só se observam evidências superficiais, pelo que não pode atacar o interior. Ou efunde a superfície, ou resolve ligeiramente, ou dispersa aquecendo, ou dispersa refrescando, ou aquece o centro apoiando-se no interior para dispersar [o perverso] sem dispersar [o genuíno], ou reforça yīn para apoiar o yīn, sendo o aforismo: “evapore e a chuva transformar-lo-á e dispersará”. Que infelicidade! Para o significado existente aqui, as palavras dificilmente chegam. Só o coração do sábio o compreende…

Notas:

(1) O termo “evidências”, em chinês 證 Zhèng, refere-se às evidências da patologia. Ou seja, os sintomas ou sinais. O termo é frequentemente traduzido como “Síndrome” ou “Padrões” na literatura moderna.

(2) “Canto da cabeça” em chinês 頭維 Tóu wéi, também corresponde à cavidade 8 do canal do estômago Yángmíng do pé (E8).

(3) “Poço do Ombro” em chinês 肩井 Jiān jǐng corresponde à cavidade 21 do canal da vesícula biliar Shàoyáng do pé (Vb21).

Sinusite (Bi Yuan) e o Canal Shaoyang

Há umas semanas atendi um estudante de medicina tradicional chinesa. A razão da consulta foi sinusite crónica entre outros desconfortos na região superior do corpo, como asma crónica, tonturas, enjoos e outros desconfortos estomacais que aliviam com protetores gástricos, frio nos pés.

O problema existe há anos, mas nos últimos 7 meses tem-se agravado. Pulso de corda e o pulso de Renying mais forte do que em Cunkou.

Quando chegou a hora de aplicar acupuntura e moxa, usei 7 agulhas, 2 delas nas cavidades (pontos) Xia Xi 俠溪 do canal da vesícula biliar Shaoyang do pé. Após 4 sessões, o estudante está sem sintomatologia mas ficou curioso, por ter utilizado aquela cavidade e perguntou a razão da minha escolha.

Eu respondi que se devia ao meu diagnóstico: calor e qi invertido no canal da vesícula biliar. Ele ficou confuso. E explicou que tinha lido bastante em relação à sinusite e tinha encontrado outras síndromes (vento e calor invadindo o pulmão, humidade, calor no canal Yangming, etc., etc.), mas nunca nada disso.

Expliquei que o fogo ministerial, ao contrário do fogo imperial, sobe pela mão e desce pelo pé. Quando o qi do canal da vesícula biliar se inverte o fogo fica retido no superior, perturbando a descida do qì do pulmão e do estômago, sendo uma das causas da sinusite ou Bi Yuan 鼻淵 na Medicina Chinesa.

Acho que embora a minha explicação justificasse a sua sintomatologia geral, não ajudou a eliminar a confusão… assim que decidi escrever um pouquito deste caso clínico (com autorização dele), mas com alguma informação adicional da literatura médica chinesa 😉 …

O Texto “Si Sheng Xin Yuan” diz:“…o yang turvo do pé desce… a doença do Shaoyang do pé é o não descer. A síndrome de calor no superior relaciona-se sempre com a não descida da madeira de Jia (vesícula biliar), carecendo de relação com os três aquecedores… a raiz do fogo ministerial naturalmente desce e se não desce, e ascende invertido, então a terra de Wu (estômago) tampouco desce… Se a terra de Wu não desce, então o metal de Xin (pulmões) movimenta-se invertido e o qì da colheita perde o seu governo, por isto o fogo ministerial ascende flamejando”

Por este motivo o capítulo 37 das “Perguntas Elementares do Cânone Interno do Imperador Amarelo” (Huang Di Nei Jing Su Wen) refere:

“Quando a vesícula biliar movimenta calor para o cérebro, então a cana do nariz dói e há Bi Yuan. Bi Yuan é a descida incessante de mucosidade nasal turva que ao transmitir-se converte-se em epistaxis e visão turva. A causa de obter (estes sintomas) é a reversão (Jue) do qì”

“膽移熱於腦則辛頞鼻淵鼻淵者濁涕不下止也傳為衄衊瞑目故得之氣厥也”

Neste caso, usei agulhas em Shangxing 上星 (Du23), Hegu 合谷 (Ig4), Taichong 太沖 (F3) e Xiaxi 俠溪 (Vb43) alternando com outras cavidades dos canais Taiyang e Taiyin da mão.

Moxa em Shenting 神庭 (Du24) e Taixi 太溪 (R3).

Usei a fórmula Xiao Chai Hu Pian 小柴胡片 (em comprimidos) do Dr. Zhang Zhong Jing.

O Capítulo Mais Importante do Livro Mais Importante de Medicina Chinesa?

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” (黃帝內經 Huáng dì nèi jīng) nunca deixa de impressionar-nos.

O texto, com aproximadamente 2500 anos, está dividido em duas partes: “As Perguntas Elementares” e “O Eixo do Espírito“, cada uma destas partes possui 81 capítulos. O estilo de escrita deste livro segue a forma tradicional de pergunta e resposta.

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” é considerado o texto mais importante da Medicina Chinesa, e um rico contentor dos princípios da Medicina Chinesa. Durante milénios foi o pilar central do estudo desta disciplina e ainda hoje é um texto de estudo obrigatório nas universidades de Medicina Chinesa na China.

Ao começar a leitura da secção “As Perguntas Elementares”, somos confrontados com o primeiro capítulo chamado “Discussão do Céu e do Genuíno na Antiguidade Remota” (上古天真論 Shàng gǔ tiān zhēn lùn), que também podemos traduzir como “Discussão do Genuíno e da Natureza na Antiguidade Remota”.

O texto começa com uma pergunta do Imperador Amarelo. Uma pergunta tão atual que facilmente poderia ser feita hoje a um especialista em saúde:

“ [O Imperador] perguntou ao Mestre Celestial: ouvi que na antiguidade remota as primaveras e os outonos das pessoas ultrapassavam os cem anos, sem declínio nas suas atividades. Na atualidade as pessoas declinam em todas as suas atividades na metade dos cem anos. A geração atual é diferente? Ou é uma falta na conduta das pessoas?”

O sábio Mestre Daoísta (Taoísta) Qí Bó entrega uma resposta que resume os princípios para alcançar a longevidade, mas também explica a razão do declínio prematuro nas pessoas:

“Qí Bó respondeu: as pessoas da antiguidade remota, conheciam o Caminho (Dào), os princípios de yin e yáng e estavam em harmonia com as artes dos números. Comiam e bebiam com restrições. Eram regulares nas suas vidas diárias. Não trabalhavam absurdamente até o esgotamento, por esta razão podiam [manter] os corpos e os espíritos completos, usando totalmente os seus anos [entregues pelo] céu, estimando-os em mais de cem.

As pessoas da atualidade não são assim. [Para eles] o álcool é como xarope. O absurdo é o regular e entram nas suas recâmaras bêbados, esgotando a suas essências pelo desejo, consumindo e dispersando assim o [qì] genuíno. Desconhecem como manter-se plenos e não guiam os seus espíritos oportunamente, satisfazem rapidamente [os desejos] das suas mentes, contrariando uma vida feliz. As suas vidas diárias carecem de regularidade, por esta razão declinam na metade dos cem anos.

Os ensinamentos dos sábios da antiguidade remota, sempre referiram evitar oportunamente o vazio perverso e o vento pernicioso, e a acalmar placidamente no vazio, para que o qì genuíno seguindo [este estado] guardasse no interior a essência e o espírito. Como [poderão] chegar as doenças assim?

Se a mente se mantém desocupada e com poucos desejos, o coração estará em paz e sem temores. Se há trabalho físico, mas sem esgotamento, o qì seguirá em concordância e cada um dos desejos que se seguem, poderão ser alcançados. Por esta razão estar-se-á satisfeito com os alimentos, não se importará com as suas roupas e contentar-se-á com o simples, sem se impressionar com as altas ou baixas aparências [sociais] e por conseguinte as pessoas chamar-lhe-ão simples (natural). Não serão capazes de esgotar os seus olhos com vícios e desejos, e a obscenidade perversa não poderá perturbar as suas mentes. O estúpido e o sábio, o virtuoso e o não virtuoso não temerão nada, devido a estarem unidos no Caminho (Dào). Por conseguinte a sua idade poderá contar-se em cem anos sem declínio nas suas atividades e as suas virtudes serão completas e sem perigos.”

O texto continua, mas não me canso de ler e reler esta parte, nem de surpreender-me de como a humanidade, com os seus temores e desejos, mudou tão pouco em mais de vinte séculos… nem parece que foi escrito há mais de 2000 anos!

Traduzi-o e quis partilhar convosco.

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