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O Terceiro Grande Colateral

Sim, o terceiro grande colateral.

Estamos habituados a ouvir a teoria dos quinze vasos dos colaterais ou redes (絡 Luò).

A literatura refere 12 vasos colaterais associados aos 12 vasos dos canais (經脈 Jīng Mài) que o “Cânone Interno do Imperador Amarelo” refere como “separações” (別 Bié), ou seja ramos que se afastam do próprio canal principal ou regular.

Além disso, são referidos dois vasos colaterais que se separam dos vasos dos canais extraordinários Rèn 任 e   督, são os vasos colaterais Wěi Yì e Cháng Qiáng, respectivamente.

Finalmente o texto indica o “Grande Colateral do Tài Yīn do pé”, chamado Dà Bāo, que à semelhança dos outros colaterais, possui uma patologia própria.

O capítulo 18 do Su Wen, refere-se um segundo grande colateral: “O Grande Colateral do Estômago”, chamado “Xū Lǐ“.

No entanto, o capítulo 10 do Ling Shu, refere mais um grande colateral, completando uma lista de 17 Colaterais principais no corpo.

A continuação, traduzo algumas pequenas excertos do capítulo 10, onde se menciona o “Grande Colateral de Yáng Míng e Shào Yáng da mão“, formando parte da rede venosa dorsal da mão e do antebraço. Este membro da família, menos conhecido, carece duma descrição de doença própria, mas é o fundamento da utilização das cavidades extraordinárias “Os Oito Perversos” (八邪 Bā Xié).

Boa leitura!

Captura de ecrã 2016-05-11, às 16.39.44

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Caso Clínico: Doença na Bexiga

Alguns estudantes têm-me pedido para escrever sobre casos clínicos, por isso vou partilhar este caso que reflecte muito bem um patomecanismo comum e repetitivo na clínica (durante a leitura podem fazer o exercício lúdico de tentar averiguar o patomecanismo e o método terapêutico 😉 ).

Este caso aconteceu a meados do ano 2014. Numa doente de 31 anos que tinha dado a luz há 13 meses o seu primeiro filho. Os antecedentes clínicos são os seguintes (relatados por ela):

A primeira infecção urinária (e única comprovada analiticamente) foi durante o primeiro trimestre de gravidez. Com sensação de ardor ao urinar. Foi-me administrado um antibiótico que não fazia mal ao bebé (Monuril, duas saquetas). Não tomei remédios para as dores porque fariam mal ao bebé. A partir dos 5 meses comecei a ter sempre desconforto na bexiga, mas foi sempre atribuído ao facto do bebé ter dado a volta e exercer pressão com a cabeça na bexiga. Chegava a ter até alguma incontinência urinária.

Logo no mês após o parto, começaram as dores na bexiga e a perda de sangue na urina. A dor é sempre forte e incapacitante. Parece que existem pedras quentes na bexiga. Há uma sensação de dor e ardor constante. O abdómen fica inchado quando as dores surgem e doi ao toque.

Fui tratada durante 8 meses como se estivesse a ter infecções urináras repetidas. Mas ao fim de 8 meses a médica reencaminhou-me para urologia, porque quando pediu análise à urina, a análise estava estéril, e só havia presença de sangue. 

O urologista fez uma uretrocistoscopia e a citologia estava normal, sem presença de células tumorais. A uretrocistoscopia só revelou que as paredes da bexiga estão muito inflamadas. Receitou-me cloreto de tróspio para provocar relaxamento das paredes da bexiga permite-me tomar brufen ou semelhante se não aguentar as dores, o que tomo todos os dias de 12 em 12 horas.

O meu sono é curto. Acordo normalmente entre as 5h30 e as 6h30 da manhã, independentemente da hora a que me tenha ido deitar, e a partir daí o sono é muito leve. Muitas vezes só permaneço na cama porque deitada é uma posição que me alivia as dores. 

O apetite durante o dia é pouco. Muitas vezes a primeira refeição que tomo é por voltas das 14h ou 15horas, por necessidade de açúcar e não por fome. Tenho alguma vontade de comer doce e algum salgado, e neste momento o picante não me cai bem. Além de achar que me aumenta as dores, fico muitas vezes com dores de estômago e o abdómen superior distendido e com sensação de ardor. 

A urina quando as dores são muito fortes é muito amarela. De resto, quando os medicamentos estão a dar algum efeito a urina é mais clara. Em qualquer das alturas, a urina tem um cheiro forte característico que não sei bem definir. 

…Tenho normalmente os pés frios e húmidos, e as mãos mais quentes do que o usual e rosetas vermelhas nas bochechas. 

Normalmente gosto de bebidas naturais ou quentes, há já alguns meses que me tem sabido muito bem bebidas frias, seja água, leite ou sumos. 

Tenho-me sentido muito cansada ultimamente… A minha memória está muito má. 

Espero ter conseguido explicar bem ao professor como me sinto e os sintomas que tenho tido. Acha que a fitoterapia que me falou me vai ajudar a ficar bem? Desculpe estar ansiosa, mas há tanto meses com dores já me sinto um pouco no desespero

Após a revisão da doente (na recepção do instituto, devido a que só a consegui ver num intervalo entre as aulas), apreciei edema generalizado, face pálida com rubor zigomático e um pulso profundo  e áspero.

Prescrevi 9 doses da seguinte prescrição para fazer decocção:

Huangqi 12g, Baizhu 8g, Yiyiren 8g, Fuling 8g, Zexie 8g, Huashi 8g, Cheqianzi 8g, Shaoyao 8g, Guizhi 8g, Chishao 8g, Taoren 8g, Gancao 6g.

Após alguns dias recebi a seguinte mensagem:

Já vou no segundo pacote de fitoterapia, vou esta noite preparar o terceiro pacote de fitoterapia.

Neste momento não tenho dor na bexiga, só um ligeiro peso… como se não me deixasse esquecer que tenho uma bexiga! Uma das coisa que tenho reparado é que urino em muito maior quantidade muito mais vezes por dia e o edema tem estado a desaparecer. Também a sensação de peso generalizado que tinha no corpo também está muito melhor (depreendo eu que fosse do edema). O cheiro da urina também já é normal e a urina é clara.

Um abraço e mil vezes obrigada por me tratar e eu finalmente estar sem dores! A vida é muito mais bonita assim!

No fim do tratamento a mensagem foi a seguinte:

Há já muito tempo que não tenho qualquer sintoma

🙂

Diagnóstico e Patomecanismo de Medicina Chinesa:

Quando a terra do baço é derrotada, não consegue apoiar a ascensão do qì puro nem controlar a água, pelo que a humidade inunda o inferior.

O fogo ministerial dos 3 aquecedores deve ascender, mas neste caso, sem o apoio da ascensão do baço afunda-se deprimindo-se na bexiga.

A bexiga é a água Ren que precisa de frescura, mas neste caso, contrariamente aquece, afetando a bexiga e a sua transformação do qì.

A falha na ascensão afeta a ascensão do qì do fígado, pelo que o fígado se deprime e não floresce saudavelmente no superior. Nesta condição o fogo ministerial da vesícula biliar se inverte aquecendo o superior também.

Há calor acima e afora (órgãos palácio) e frio no interior (baço e rins).

😉

Agradeço vosso feedback, assim todos aprendemos.

Quando tiver tempo, continuarei partilhando mais casos clínicos.

Sinusite (Bi Yuan) e o Canal Shaoyang

Há umas semanas atendi um estudante de medicina tradicional chinesa. A razão da consulta foi sinusite crónica entre outros desconfortos na região superior do corpo, como asma crónica, tonturas, enjoos e outros desconfortos estomacais que aliviam com protetores gástricos, frio nos pés.

O problema existe há anos, mas nos últimos 7 meses tem-se agravado. Pulso de corda e o pulso de Renying mais forte do que em Cunkou.

Quando chegou a hora de aplicar acupuntura e moxa, usei 7 agulhas, 2 delas nas cavidades (pontos) Xia Xi 俠溪 do canal da vesícula biliar Shaoyang do pé. Após 4 sessões, o estudante está sem sintomatologia mas ficou curioso, por ter utilizado aquela cavidade e perguntou a razão da minha escolha.

Eu respondi que se devia ao meu diagnóstico: calor e qi invertido no canal da vesícula biliar. Ele ficou confuso. E explicou que tinha lido bastante em relação à sinusite e tinha encontrado outras síndromes (vento e calor invadindo o pulmão, humidade, calor no canal Yangming, etc., etc.), mas nunca nada disso.

Expliquei que o fogo ministerial, ao contrário do fogo imperial, sobe pela mão e desce pelo pé. Quando o qi do canal da vesícula biliar se inverte o fogo fica retido no superior, perturbando a descida do qì do pulmão e do estômago, sendo uma das causas da sinusite ou Bi Yuan 鼻淵 na Medicina Chinesa.

Acho que embora a minha explicação justificasse a sua sintomatologia geral, não ajudou a eliminar a confusão… assim que decidi escrever um pouquito deste caso clínico (com autorização dele), mas com alguma informação adicional da literatura médica chinesa 😉 …

O Texto “Si Sheng Xin Yuan” diz:“…o yang turvo do pé desce… a doença do Shaoyang do pé é o não descer. A síndrome de calor no superior relaciona-se sempre com a não descida da madeira de Jia (vesícula biliar), carecendo de relação com os três aquecedores… a raiz do fogo ministerial naturalmente desce e se não desce, e ascende invertido, então a terra de Wu (estômago) tampouco desce… Se a terra de Wu não desce, então o metal de Xin (pulmões) movimenta-se invertido e o qì da colheita perde o seu governo, por isto o fogo ministerial ascende flamejando”

Por este motivo o capítulo 37 das “Perguntas Elementares do Cânone Interno do Imperador Amarelo” (Huang Di Nei Jing Su Wen) refere:

“Quando a vesícula biliar movimenta calor para o cérebro, então a cana do nariz dói e há Bi Yuan. Bi Yuan é a descida incessante de mucosidade nasal turva que ao transmitir-se converte-se em epistaxis e visão turva. A causa de obter (estes sintomas) é a reversão (Jue) do qì”

“膽移熱於腦則辛頞鼻淵鼻淵者濁涕不下止也傳為衄衊瞑目故得之氣厥也”

Neste caso, usei agulhas em Shangxing 上星 (Du23), Hegu 合谷 (Ig4), Taichong 太沖 (F3) e Xiaxi 俠溪 (Vb43) alternando com outras cavidades dos canais Taiyang e Taiyin da mão.

Moxa em Shenting 神庭 (Du24) e Taixi 太溪 (R3).

Usei a fórmula Xiao Chai Hu Pian 小柴胡片 (em comprimidos) do Dr. Zhang Zhong Jing.

A profundidade oculta das cinco fases (5 elementos)

Olá,

Estava a preparar um resumo simples da teoria dos cinco movimentos (wu xing 五行) para os meus estudantes de Astrologia Chinesa Clássica Ba Zi.

O Ba Zi é o estudo dos princípios do destino (ming li), enraizando-se fortemente no fator tempo. Devido a isto decidi referir-me aos movimentos ou elementos, como “fases”. Lembrando o seu carácter cíclico dentro dum processo determinado.

Embora o tópico da discussão seja o método Ba Zi (8 caracteres), senti que partilhar esta pequena parte da discussão poderá ser de algum interesse para os estudantes das diferentes disciplinas chinesas que utilizam o conceito de cinco movimentos, fases ou elementos.

Embora os nomes das fases possam ser discutidos, e eu próprio utilizo outros nomes, mantenho neste artigo a forma mais popular de denomina-las (madeira, fogo, terra, metal e água).

As 5 Fases – interações 1 de 3

Existem diferentes formas de interação entre as 5 fases.

Algumas interações são suaves e com um fluxo natural (shun 順), como por exemplo o fluir das estações. Outras interações são mais agressivas e seguem um movimento oposto ( 逆).

O movimento natural ou concordante (shun), permite que exista uma transformação suave entre as diferentes etapas dum processo, promovendo o crescimento das 5 fases.

Este movimento concordante recebe o nome de “geração mútua das 5 fases” (wu xing xiang sheng 五行相生) ou “mãe – filho”, onde a fase geradora é a mãe (mu 母) e a fase gerada é o filho (zi 子).

A sequência cíclica de geração é: madeira gera fogo > fogo gera terra > terra gera metal > metal gera água > água gera madeira.

Ou seja: madeira > fogo > terra > metal > água > madeira…

wuxing

No processo de transformação em que uma fase gera a outra fase, a fase geradora transmite gradualmente o seu qì à fase gerada. Na transmissão, a fase geradora “perde” (ou transforma) qì.

Por exemplo:

O qì da terra (mãe) gera o qì do metal (filho). Este processo transmite (drena) o qì da terra para o metal. O processo “diminuirá” o qì da terra. Esta diminuição é normal e reflete o movimento de crescimento e decréscimo de yin e yang.

Se o qì da terra for robusto na carta de Ba Zi, então gerar metal será benéfico, permitindo que a terra possa dar nascimento harmoniosamente a um novo tipo de qì, promovendo o movimento cíclico.

A mãe aumenta o qì do filho. Por exemplo:

Um ano com qì de metal (Geng 庚 – Xin 辛) fortalecerá o qì da água (Ren 壬 – Gui 癸) e um mês com qì de madeira (Jia 甲 – Yi 乙) fortalecerá o qì do fogo (Bing 丙 – Ding 丁).

Por outra parte, a filho drenará o qì da mãe, ou seja:

Um ano com qì de metal (Geng 庚 – Xin 辛) drenará o qì da terra (Wu 戊 – Ji 己) e um mês com de madeira (Jia 甲 – Yi 乙) drenará o qì da água (Ren 壬 – Gui 癸).

Se a geração é benéfica ou não dependerá da força das fases geradas o geradoras.

O texto “Yuan Hai Zi Ping”, um dos textos mais importantes da astrologia chinesa clássica, indica a condição em que a mãe demasiado forte prejudica o filho:

火賴木生              木多火烈

木賴水生              水多木漂

O fogo depende da geração da madeira. Se a madeira é demasiada, então extinguirá o fogo.

A madeira depende da geração da água. Se a água é demasiada, então a madeira flutuará.

Outra passagem do texto, refere a situação em que o filho demasiado forte prejudica a mãe:

水能生木              木多水縮

木能生火              火多木焚

A água pode gerar a madeira. Se a madeira for demasiada, a água diminuirá

A madeira pode gerar o fogo. Se o fogo for demasiado a madeira arderá

Finalmente o mesmo texto indica a condição em que a mãe forte, se beneficia com a geração do filho:

強水得木              方泄其氣

強木得火              方化其頑

Quando a água forte obtém madeira, pode drenar o seu qì

Quando a madeira forte obtém fogo, pode transformar a sua rigidez

Embora os cinco movimentos possuam formas de auto-regulação (discutirei depois esta temática), como as interações de “restrição e transformação” (zhi hua 制花) e “supremacia e retaliação ou recuperação” (sheng fu 勝復), não devemos aplicar direta e rigidamente as leis de geração e de controlo, devendo sempre avaliar cada condição tendo em mente a procura do equilíbrio.

Os cinco movimentos, são simples em aparência, mas não devemos esquecer que cada fase divide-se em dois e posteriormente em 12 formas diferentes.

Na medicina chinesa as 12 variações das cinco fases aprecia-se nas cavidade (pontos) shu, no Feng Shui apreciasse em cada método aplicado, e impregna cada disciplina tradicional chinesa, quando estudada em profundidade… Lá está outra parte da beleza do sistema.

Até breve!

O Capítulo Mais Importante do Livro Mais Importante de Medicina Chinesa?

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” (黃帝內經 Huáng dì nèi jīng) nunca deixa de impressionar-nos.

O texto, com aproximadamente 2500 anos, está dividido em duas partes: “As Perguntas Elementares” e “O Eixo do Espírito“, cada uma destas partes possui 81 capítulos. O estilo de escrita deste livro segue a forma tradicional de pergunta e resposta.

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” é considerado o texto mais importante da Medicina Chinesa, e um rico contentor dos princípios da Medicina Chinesa. Durante milénios foi o pilar central do estudo desta disciplina e ainda hoje é um texto de estudo obrigatório nas universidades de Medicina Chinesa na China.

Ao começar a leitura da secção “As Perguntas Elementares”, somos confrontados com o primeiro capítulo chamado “Discussão do Céu e do Genuíno na Antiguidade Remota” (上古天真論 Shàng gǔ tiān zhēn lùn), que também podemos traduzir como “Discussão do Genuíno e da Natureza na Antiguidade Remota”.

O texto começa com uma pergunta do Imperador Amarelo. Uma pergunta tão atual que facilmente poderia ser feita hoje a um especialista em saúde:

“ [O Imperador] perguntou ao Mestre Celestial: ouvi que na antiguidade remota as primaveras e os outonos das pessoas ultrapassavam os cem anos, sem declínio nas suas atividades. Na atualidade as pessoas declinam em todas as suas atividades na metade dos cem anos. A geração atual é diferente? Ou é uma falta na conduta das pessoas?”

O sábio Mestre Daoísta (Taoísta) Qí Bó entrega uma resposta que resume os princípios para alcançar a longevidade, mas também explica a razão do declínio prematuro nas pessoas:

“Qí Bó respondeu: as pessoas da antiguidade remota, conheciam o Caminho (Dào), os princípios de yin e yáng e estavam em harmonia com as artes dos números. Comiam e bebiam com restrições. Eram regulares nas suas vidas diárias. Não trabalhavam absurdamente até o esgotamento, por esta razão podiam [manter] os corpos e os espíritos completos, usando totalmente os seus anos [entregues pelo] céu, estimando-os em mais de cem.

As pessoas da atualidade não são assim. [Para eles] o álcool é como xarope. O absurdo é o regular e entram nas suas recâmaras bêbados, esgotando a suas essências pelo desejo, consumindo e dispersando assim o [qì] genuíno. Desconhecem como manter-se plenos e não guiam os seus espíritos oportunamente, satisfazem rapidamente [os desejos] das suas mentes, contrariando uma vida feliz. As suas vidas diárias carecem de regularidade, por esta razão declinam na metade dos cem anos.

Os ensinamentos dos sábios da antiguidade remota, sempre referiram evitar oportunamente o vazio perverso e o vento pernicioso, e a acalmar placidamente no vazio, para que o qì genuíno seguindo [este estado] guardasse no interior a essência e o espírito. Como [poderão] chegar as doenças assim?

Se a mente se mantém desocupada e com poucos desejos, o coração estará em paz e sem temores. Se há trabalho físico, mas sem esgotamento, o qì seguirá em concordância e cada um dos desejos que se seguem, poderão ser alcançados. Por esta razão estar-se-á satisfeito com os alimentos, não se importará com as suas roupas e contentar-se-á com o simples, sem se impressionar com as altas ou baixas aparências [sociais] e por conseguinte as pessoas chamar-lhe-ão simples (natural). Não serão capazes de esgotar os seus olhos com vícios e desejos, e a obscenidade perversa não poderá perturbar as suas mentes. O estúpido e o sábio, o virtuoso e o não virtuoso não temerão nada, devido a estarem unidos no Caminho (Dào). Por conseguinte a sua idade poderá contar-se em cem anos sem declínio nas suas atividades e as suas virtudes serão completas e sem perigos.”

O texto continua, mas não me canso de ler e reler esta parte, nem de surpreender-me de como a humanidade, com os seus temores e desejos, mudou tão pouco em mais de vinte séculos… nem parece que foi escrito há mais de 2000 anos!

Traduzi-o e quis partilhar convosco.

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A Medicina Chinesa e as Três Forças 三才 (em palavras simples)

A Medicina Chinesa, é uma das 4 medicinas tradicionais reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde. No entanto o que conhecemos como Medicina Tradicional Chinesa, é um modelo relativamente moderno, sistematizado durante a segunda metade do século XX, a partir de alguns princípios da Medicina Chinesa.

Com uma história de mais de 2500 anos, a Medicina Chinesa tem desenvolvido ao longo dos séculos uma forma única de ver o ser humano, interagindo continuamente com as forças da natureza, denominadas: “(energias) do céu e da terra“.

As forças do céu são fortemente determinadas pelos movimentos cíclicos dos corpos celestes, dos que se derivam a medição do tempo, e as diferencias climáticas.

As forças da terra são determinadas pela influência das caraterísticas do espaço, que influencia a qualidade da terra e da água e as suas manifestações na paisagem e na qualidade da nossa alimentação, entre outros aspetos.

Por conseguinte, a vida humana está submetida às contínuas influências do tempo e do espaço.

Em base a este paradigma, a Medicina Chinesa cria um completo modelo da fisiologia e patologia humana diretamente relacionado com as forças do céu, da terra e da humanidade.

Um modelo que considera o qì do céu como seis qì (六氣 liu qi) expressados em forças climáticas cíclicas. Estes ciclos podem ser regulares (主氣 zhu qì) ou irregulares (客氣 ke qi). Cada um destes qì rege as forças do céu durante dois meses no ano, resultando em forças que afetam de diversas maneiras a nossa fisiologia.

O qì da terra, se expressa como cinco fases cíclicas (五運 wu yun) do qì. Manifestando-se como quatro direções à volta do qì central. Estas cinco manifestações se relacionam com os diferentes fenómenos naturais, criando cinco sistemas que categorizam e abrangem as estações do ano, as direções, cores, sabores, cheiros, etc. associando-se aos 6 qì do céu.

O qì humano, representa as influências da nossa sociedade e cultura. A forma em que nos afetam o relacionamento com os outros e com nos próprios. Também se inclui nesta parte a constituição física e funcional do indivíduo. Isto tudo pertence ao qì do homem.

Desde a perspetiva da Medicina Chinesa, a compreensão da saúde e da doença só pode ser alcançada integrando estas três grandes influências do céu, da terra e da humanidade.

E é sobe esta visão que a Medicina Chinesa estabelece o conceito de saúde como “o equilíbrio de yin e yang”. A pessoa saudável é chamada de “pessoa equilibrada” (平人 ping ren), sendo alguém capaz de conservar a normalidade das funções vitais, conseguindo adaptar-se as contínuas mudanças internas e externas.

Este conceito gera um completo modelo da fisiologia humana e métodos de cultivo da saúde.

Mas sobe esta mesma perspetiva, também deduz um modelo onde a doença, é a incapacidade de manter o equilíbrio de yin e yang, ou seja a incapacidade de preservar o equilíbrio entre as diferentes funciones vitais e os tecidos orgânicos. A incapacidade de manter o equilíbrio entre o corpo ou a “essência” e o espírito.

Esta visão da origem aos métodos de diagnóstico e prognóstico, aos princípios de geração e transmissão das doenças e as formas de tratamento que visam recuperar a normal interação do individuo com as forças do céu, da terra e da humanidade no exterior. No interior permitem que o fluxo normal das funções orgânicas e estruturais (機 ji) se preserve.