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O Capítulo Mais Importante do Livro Mais Importante de Medicina Chinesa?

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” (黃帝內經 Huáng dì nèi jīng) nunca deixa de impressionar-nos.

O texto, com aproximadamente 2500 anos, está dividido em duas partes: “As Perguntas Elementares” e “O Eixo do Espírito“, cada uma destas partes possui 81 capítulos. O estilo de escrita deste livro segue a forma tradicional de pergunta e resposta.

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” é considerado o texto mais importante da Medicina Chinesa, e um rico contentor dos princípios da Medicina Chinesa. Durante milénios foi o pilar central do estudo desta disciplina e ainda hoje é um texto de estudo obrigatório nas universidades de Medicina Chinesa na China.

Ao começar a leitura da secção “As Perguntas Elementares”, somos confrontados com o primeiro capítulo chamado “Discussão do Céu e do Genuíno na Antiguidade Remota” (上古天真論 Shàng gǔ tiān zhēn lùn), que também podemos traduzir como “Discussão do Genuíno e da Natureza na Antiguidade Remota”.

O texto começa com uma pergunta do Imperador Amarelo. Uma pergunta tão atual que facilmente poderia ser feita hoje a um especialista em saúde:

“ [O Imperador] perguntou ao Mestre Celestial: ouvi que na antiguidade remota as primaveras e os outonos das pessoas ultrapassavam os cem anos, sem declínio nas suas atividades. Na atualidade as pessoas declinam em todas as suas atividades na metade dos cem anos. A geração atual é diferente? Ou é uma falta na conduta das pessoas?”

O sábio Mestre Daoísta (Taoísta) Qí Bó entrega uma resposta que resume os princípios para alcançar a longevidade, mas também explica a razão do declínio prematuro nas pessoas:

“Qí Bó respondeu: as pessoas da antiguidade remota, conheciam o Caminho (Dào), os princípios de yin e yáng e estavam em harmonia com as artes dos números. Comiam e bebiam com restrições. Eram regulares nas suas vidas diárias. Não trabalhavam absurdamente até o esgotamento, por esta razão podiam [manter] os corpos e os espíritos completos, usando totalmente os seus anos [entregues pelo] céu, estimando-os em mais de cem.

As pessoas da atualidade não são assim. [Para eles] o álcool é como xarope. O absurdo é o regular e entram nas suas recâmaras bêbados, esgotando a suas essências pelo desejo, consumindo e dispersando assim o [qì] genuíno. Desconhecem como manter-se plenos e não guiam os seus espíritos oportunamente, satisfazem rapidamente [os desejos] das suas mentes, contrariando uma vida feliz. As suas vidas diárias carecem de regularidade, por esta razão declinam na metade dos cem anos.

Os ensinamentos dos sábios da antiguidade remota, sempre referiram evitar oportunamente o vazio perverso e o vento pernicioso, e a acalmar placidamente no vazio, para que o qì genuíno seguindo [este estado] guardasse no interior a essência e o espírito. Como [poderão] chegar as doenças assim?

Se a mente se mantém desocupada e com poucos desejos, o coração estará em paz e sem temores. Se há trabalho físico, mas sem esgotamento, o qì seguirá em concordância e cada um dos desejos que se seguem, poderão ser alcançados. Por esta razão estar-se-á satisfeito com os alimentos, não se importará com as suas roupas e contentar-se-á com o simples, sem se impressionar com as altas ou baixas aparências [sociais] e por conseguinte as pessoas chamar-lhe-ão simples (natural). Não serão capazes de esgotar os seus olhos com vícios e desejos, e a obscenidade perversa não poderá perturbar as suas mentes. O estúpido e o sábio, o virtuoso e o não virtuoso não temerão nada, devido a estarem unidos no Caminho (Dào). Por conseguinte a sua idade poderá contar-se em cem anos sem declínio nas suas atividades e as suas virtudes serão completas e sem perigos.”

O texto continua, mas não me canso de ler e reler esta parte, nem de surpreender-me de como a humanidade, com os seus temores e desejos, mudou tão pouco em mais de vinte séculos… nem parece que foi escrito há mais de 2000 anos!

Traduzi-o e quis partilhar convosco.

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A Medicina Chinesa e as Três Forças 三才 (em palavras simples)

A Medicina Chinesa, é uma das 4 medicinas tradicionais reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde. No entanto o que conhecemos como Medicina Tradicional Chinesa, é um modelo relativamente moderno, sistematizado durante a segunda metade do século XX, a partir de alguns princípios da Medicina Chinesa.

Com uma história de mais de 2500 anos, a Medicina Chinesa tem desenvolvido ao longo dos séculos uma forma única de ver o ser humano, interagindo continuamente com as forças da natureza, denominadas: “(energias) do céu e da terra“.

As forças do céu são fortemente determinadas pelos movimentos cíclicos dos corpos celestes, dos que se derivam a medição do tempo, e as diferencias climáticas.

As forças da terra são determinadas pela influência das caraterísticas do espaço, que influencia a qualidade da terra e da água e as suas manifestações na paisagem e na qualidade da nossa alimentação, entre outros aspetos.

Por conseguinte, a vida humana está submetida às contínuas influências do tempo e do espaço.

Em base a este paradigma, a Medicina Chinesa cria um completo modelo da fisiologia e patologia humana diretamente relacionado com as forças do céu, da terra e da humanidade.

Um modelo que considera o qì do céu como seis qì (六氣 liu qi) expressados em forças climáticas cíclicas. Estes ciclos podem ser regulares (主氣 zhu qì) ou irregulares (客氣 ke qi). Cada um destes qì rege as forças do céu durante dois meses no ano, resultando em forças que afetam de diversas maneiras a nossa fisiologia.

O qì da terra, se expressa como cinco fases cíclicas (五運 wu yun) do qì. Manifestando-se como quatro direções à volta do qì central. Estas cinco manifestações se relacionam com os diferentes fenómenos naturais, criando cinco sistemas que categorizam e abrangem as estações do ano, as direções, cores, sabores, cheiros, etc. associando-se aos 6 qì do céu.

O qì humano, representa as influências da nossa sociedade e cultura. A forma em que nos afetam o relacionamento com os outros e com nos próprios. Também se inclui nesta parte a constituição física e funcional do indivíduo. Isto tudo pertence ao qì do homem.

Desde a perspetiva da Medicina Chinesa, a compreensão da saúde e da doença só pode ser alcançada integrando estas três grandes influências do céu, da terra e da humanidade.

E é sobe esta visão que a Medicina Chinesa estabelece o conceito de saúde como “o equilíbrio de yin e yang”. A pessoa saudável é chamada de “pessoa equilibrada” (平人 ping ren), sendo alguém capaz de conservar a normalidade das funções vitais, conseguindo adaptar-se as contínuas mudanças internas e externas.

Este conceito gera um completo modelo da fisiologia humana e métodos de cultivo da saúde.

Mas sobe esta mesma perspetiva, também deduz um modelo onde a doença, é a incapacidade de manter o equilíbrio de yin e yang, ou seja a incapacidade de preservar o equilíbrio entre as diferentes funciones vitais e os tecidos orgânicos. A incapacidade de manter o equilíbrio entre o corpo ou a “essência” e o espírito.

Esta visão da origem aos métodos de diagnóstico e prognóstico, aos princípios de geração e transmissão das doenças e as formas de tratamento que visam recuperar a normal interação do individuo com as forças do céu, da terra e da humanidade no exterior. No interior permitem que o fluxo normal das funções orgânicas e estruturais (機 ji) se preserve.