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O Terceiro Grande Colateral

Sim, o terceiro grande colateral.

Estamos habituados a ouvir a teoria dos quinze vasos dos colaterais ou redes (絡 Luò).

A literatura refere 12 vasos colaterais associados aos 12 vasos dos canais (經脈 Jīng Mài) que o “Cânone Interno do Imperador Amarelo” refere como “separações” (別 Bié), ou seja ramos que se afastam do próprio canal principal ou regular.

Além disso, são referidos dois vasos colaterais que se separam dos vasos dos canais extraordinários Rèn 任 e   督, são os vasos colaterais Wěi Yì e Cháng Qiáng, respectivamente.

Finalmente o texto indica o “Grande Colateral do Tài Yīn do pé”, chamado Dà Bāo, que à semelhança dos outros colaterais, possui uma patologia própria.

O capítulo 18 do Su Wen, refere-se um segundo grande colateral: “O Grande Colateral do Estômago”, chamado “Xū Lǐ“.

No entanto, o capítulo 10 do Ling Shu, refere mais um grande colateral, completando uma lista de 17 Colaterais principais no corpo.

A continuação, traduzo algumas pequenas excertos do capítulo 10, onde se menciona o “Grande Colateral de Yáng Míng e Shào Yáng da mão“, formando parte da rede venosa dorsal da mão e do antebraço. Este membro da família, menos conhecido, carece duma descrição de doença própria, mas é o fundamento da utilização das cavidades extraordinárias “Os Oito Perversos” (八邪 Bā Xié).

Boa leitura!

Captura de ecrã 2016-05-11, às 16.39.44

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A Tosse, explicada pelo Médico Chinês Tang Rong Chuan

No ano 2006 encontrei “por acaso” um texto.

Ao começar a leitura fiquei surpreendido pela simplicidade com que explicava a patologia de Medicina Chinesa e consegui identificar alguma terminologia do “Cânone Interior do Imperador Amarelo”, pelo que me entusiasmei e comecei a traduzir com as ferramentas que dispunha naquela altura.

O livro era a “Discussão das Evidências do Sangue” (Xuè Zhèng Lùn) do médico chinês 唐宗海 Táng Zōng Hǎi (1846 – 1897), mais conhecido pela sua alcunha de 唐容川 Táng Róng Chuān.

O termo “evidências”, em chinês 證 Zhèng, refere-se às evidências da patologia. Ou seja, os sintomas ou sinais. O termo é frequentemente traduzido como “Síndrome” ou “Padrões” na literatura moderna.

Táng Róng Chuān foi conhecido como um dos representantes da “Escola de Pensamento de Integração das Medicinas Chinesa e Ocidental” (Zhōng xī yī huì tōng xuè pài) e um prolífico escritor, existindo 8 publicações da sua autoria.

Gosto muito da forma como expressa a Medicina Chinesa e o como lida com os medicamentos tradicionais chineses.

O capítulo que encontrei naquela altura foi: “Tosse com Sangue (Hemoptise)”, do Volume II da obra. O Dr. Táng, discute a tosse dividindo-a em 6 categorias: tosse por plenitude, por vazio, por fleuma, por qì, por vapor dos ossos e por tuberculose.

A seguir, traduzo o começo da discussão geral da “Tosse com Sangue”:

Tosse com Sangue (Hemoptise)

Os pulmões governam o qì e a tosse é uma doença do qì, por isto a tosse com sangue pertence aos pulmões.

O qì dos pulmões, reúne-se no exterior com a pele e o pelo, e abre-se no nariz. Nas evidências (1) exteriores, quando o nariz se obstrui e a pele e os pelos se fecham com firmeza, o seu qì contrariamente, se obstrui no interior, asfixiando a saída no espaço entre a garganta, expressando-se como tosse. Esta é a tosse por causa exterior.

O qì dos pulmões desce, transportando-se até à bexiga, passando ao intestino grosso, onde se comunica e regula os líquidos e humores, governando a restrição e a regularidade (2).

Quando a restrição e a regularidade descem, então o qì flui em concordância e a respiração é calma.

Se a restrição e a regularidade não se movimentam, então o qì inverte-se e há tosse. Esta é a tosse por causa interior.

A tosse por causa exterior, não é mais do que o fecho e a obstrução das aberturas. Quando o qì dos pulmões não consegue alcançar a pele na superfície, resulta numa aceleração no interior do espaço da garganta, convertendo-se em tosse. No próprio corpo dos pulmões, o normal é, que certamente, ainda não tenha recebido a lesão.

Enquanto à tosse por causa interna, deve-se à falha no movimento da restrição e a regularidade.

Os pulmões são de corpo de metal, a sua natureza é ligeira e fresca. Nos pulmões normalmente existem humores-yīn que nutrem com força o seu corpo, causando que as folhas dos pulmões estejam penduradas para baixo, nutrindo também o inferior como a chuva e o orvalho, produzindo a desobstrução da bexiga, regularizando o intestino grosso e conseguindo lubrificar e desinibir o qì dos 5 órgãos armazéns e dos 6 órgãos palácio, sem obstruções nem pausas. Beneficiando a desobstrução e regulação do qì dos pulmões.

Se os humores-yīn dentro dos pulmões forem insuficientes, então o fogo controlá-los-á e castigará, convertendo-se em atrofia pulmonar.

Quando as folhas dos pulmões se queimam, levantam-se impedindo que pendurem para baixo, causando que os humores-yīn não possam gotejar, vertendo-se para o inferior e o qì nos pulmões ascende invertido convertendo-se em tosse. Esta tosse por causa interior, é uma evidência de difícil tratamento.

As duas [condições] anteriores, são as doenças fundamentais dos pulmões e as causas  próprias da tosse…

(1) 證 zhèng = evidências, síndromes, padrões ou sintomas e sinais

(2) O capítulo Capítulo 8 do Su Wen “Discussão do Clássico Secreto da Orquídea Espiritual” refere: “os pulmões são os oficiais do primeiro ministro e conselheiro. Por conseguinte, emitem a ordem e a regulação” (肺者相傅之官治節出焉).

“O Cânone Interno do Imperador Amarelo” (Nei Jing) nas palavras do próprio Mestre Wang Bing

Olá amigos!

Estando próximo o início do “Curso de Nei Jing“, desejei escrever um pouco em relação à importância que possui esta obra para os nossos estudos de Medicina Chinesa e ao fantástico que o texto é em si. No entanto, pensei que ninguém era melhor para descrever o texto que o próprio editor da dinastia Tang, o Mestre Wang Bing, compilador da edição mais conhecida e respeitada do texto.

O médico Wang Bing, oficial durante a dinastia Tang, recebeu a alcunha de respeito Qǐ Xuán Zǐ.

No ano 762 publicou a mais importante obra da história da Medicina Chinesa, o “Cânone Interior do Imperador Amarelo” (Huang Di Nei Jing que a seguir resumirei simplesmente como “Nei Jing”).

Num momento em que a tendência se centra em conhecer o “como”, mas ignorando os “porquês” (fenómeno atemporal), Wang Bing procura recuperar a essência da Medicina Chinesa, dedicando 12 anos da sua vida à investigação do Nei Jing.

Foi deplorável o estado em que Wang Bing encontrou o texto, pelo que o seu trabalho consistiu em compilar, emendar e escrever inúmeros comentários para cada parágrafo desta obra. Durante este trabalho, Wang Bing visitou muitas pessoas ilustres na Medicina Chinesa, unindo assim diferentes peças do puzzle. No entanto, o facto de Wang Bing ter recebido uma edição secreta do texto do Sábio “Zhang Zhong Jing”, marcou o culminar da sua investigação, esclarecendo a estrutura conceitual do texto e o corpo de ideias nele contido.

É interessante que o próprio Zhang Zhong Jing, um dos personagens mais relevantes da medicina chinesa, cita este texto no seu prefácio do “Shang Han Za Bing Lun”, indicando-o como parte da educação médica que ele recebeu.

Wang Bing, menciona a forma como este texto deve ser estudado e a tremenda importância no estudo do caminho da medicina e no seu prefácio parece profetizar a transcendência do seu livro através do tempo com as seguintes palavras:

“…De modo a que os aprendizes não cometam erros e os estudantes pensem luminosamente, propagando o Caminho supremo. Desta forma o som dos seus emblemas será eterno e depois de 1000 anos a infinita compaixão e benevolência dos grandiosos sábios será conhecida…

Há mais de 1200 anos Wang Bing referiu: “embora os anos passassem e as dinastias tenham sido reformadas repetidamente, o ensino e estudo (deste Cânone) ainda sobrevive”. É interessante o facto de ainda hoje o texto ser de estudo obrigatório nas faculdades de Medicina Chinesa na China.

Wang Bing consciente da dificuldade gerada da difícil semântica da obra, escreveu uma série de textos dedicados a explicar a teoria do Nei Jing, dedicando-se especialmente a disciplina dos “5 Ciclos e os 6 Qì” (wu yun liu qi). Os textos são: “Xuan Zhu Mi Yu, “Tian Yuan Yu Ce e “Yuan He Ji Yong Jing”.

Pessoalmente, tenho usufruído dos dois primeiros textos no estudo da teoria do Nei Jing, sendo cofres maravilhosos, cheios de pérolas de Medicina Chinesa. O terceiro texto indica as prescrições e a aplicação dos medicamentos segundo os 5 Ciclos e os 6 Qì.


De seguida, apresento um resumo do prefácio de Wang Bing que considero de grande beleza para quem estuda com paixão esta maravilhosa Medicina Chinesa.

A tradução que apresento, é parte do meu humilde trabalho de tradução do “Nei Jing” comentado por Wang Bing, no qual trabalho há anos e que espero publicar brevemente.


A libertação das ataduras e a eliminação das dificuldades para completar o genuíno e guiar o  qì; resgatar a benevolência e a longevidade da escuridão e ter sucesso ao ajudar os débeis na recuperação da sua saúde, não pode conseguir-se sem o Caminho dos 3 Sábios…

…Embora os anos passassem e as dinastias tenham sido reformadas repetidamente, o ensino e estudo (deste Cânone) ainda sobrevive. Mas, temendo (o seu ensino) na pessoa errada, ocasionalmente (o Cânone) foi escondido. Por este motivo o “Sétimo Volume” foi oculto pelos mestres, pelo que na atualidade é aceite que são só 8 volumes.

No entanto, é um texto escrito em tiras de bambu, o seus significados são imensos, as suas teorias são misteriosas e de profundo interesse.

(O Cânone) divide as imagens do céu e da terra, organiza os estados de yin e yang, indica as causas das mudanças e transformações e cita os sinais da morte e da vida.

(No texto) o distante e o próximo unem-se sem conflito, o obscuro e o evidente concordam sem restrições.

Ao examinar as suas palavras, a profundidade que possuem pode ser comprovada nos factos sem haver erro. Honestamente pode-se dizer que é um modelo do Caminho supremo.

Se possui talento natural para compreender os mistérios deste conhecimento maravilhoso e os seus esquemas completos, embora seja uma pessoa com inteligência inata, ainda precisará de explicações dos clássicos. Ainda não há ninguém que para caminhar não precise dum caminho e que para sair não precise duma porta.

Foque os seus pensamentos e estude o essencial, explore as subtilezas ocultas no profundo, o seu conhecimento obterá o genuíno e o essencial, (como quem) olha um boi sem (se concentrar) no todo. Por isto agirá com sucesso, como se fosse assistido secretamente por fantasmas e espíritos, assim, de tempos em tempos, aparecerão (indivíduos) excepcionais e de renome mundial. Assim, (no período) Zhou existiu o venerável Qín, (no período) Wei existiu a sua excelência Zhāng e a sua excelência Huá, todos eles obtiveram o Caminho da excelência. Todos renovaram diariamente as suas aplicações e ajudaram grandemente a humanidade a florescer sucessivamente como flores e folhas, existindo concordância entre a reputação e os factos. Devendo-se aos seus estudos mas também à dádiva celestial.

(Eu) Bīng, desde a minha juventude admirei o Caminho e sempre gostei do cultivo da vida. Afortunadamente encontrei o Cânone genuíno, sendo um modelo, como a tartaruga ou o espelho.

…Se deseja subir o Monte Dài, como irá fazê-lo sem um caminho? Se deseja visitar Fú Sāng, não é possível sem um barco. Pelo que investiguei com diligência e esmero, reuni-me com várias pessoas e depois de 12 anos cheguei aos princípios essenciais, inquiri até conseguir ver o que estava de errado até satisfazer profundamente o que por longo tempo estava no meu coração.

Estive algum tempo no Salão do meu Mestre Guō Zǐ Zhāi, de quem recebi uma edição secreta do mestre ancestral, o venerável Zhāng (Zhòng Jǐng). A escrita era evidentemente clara e o significado dos seus princípios, completo. Ao examiná-lo em detalhe, as dúvidas dissolveram-se como o gelo.

Temo que (estes textos) se dispersem entre o conhecimento superficial, cortando assim a dádiva dos mestres, consequentemente escrevi comentários, para que seja utilizado na transmissão sem corrupção (deste ensinamento). Combinei-o com o antigo volume oculto, unindo-os em  81 capítulos e em 24 volumes, formando um todo. Desejo que investigando a cauda, se compreenda a cabeça, e buscando nos comentários se compreenda o Cânone e se abra aos principiantes e os princípios supremos sejam propagados….

…A linguagem destes raciocínios é secreta e densa, com uma narrativa difícil de ser discutida, (pelo qual) escrevi separadamente (o livro) “As Pérolas do Profundo e Misterioso” para explicar o Caminho (do Nei Jing).

(O meu) desejo é clarificar os éditos dos sábios, difundindo livremente as suas palavras misteriosas, para que sejam ordenadas como as constelações penduradas no alto, onde as (constelações) Kui e Zhang não se confundem, (como) um profundo manancial limpo e cristalino, onde as escamas e as carapaças possam ser distinguidas. Desta forma o Imperador e os seus subordinados, não perecerão prematuramente e os bárbaros e chineses poderão observar uma vida longa.

De modo a que os aprendizes não cometam erros e os estudantes pensem luminosamente, propagando o Caminho supremo, desta forma o som dos seus emblemas será eterno e depois de 1000 anos a infinita compaixão e benevolência dos grandiosos sábios será conhecida.


Gostaram?

Espero que seja um estímulo para continuarmos a estudar a Medicina Chinesa com dedicação, espírito crítico, paixão e alegria!

Larry Ibarra

Chegou o Ano Cabra de Madeira Yin (Yi Wei) e a Primavera!!! …A primavera???!

Olá a todos!

Sim, é verdade!

Ontem 4 de Fevereiro começou o ano da Cabra (Wei 未) de Madeira Yin (Yi 乙) segundo o Calendário Solar Chinês. Na China existem 3 formas de calendário:

  1. O calendário solar (usado em Bazi, Fengshui, etc.)
  2. O calendário lunar (usado em astrologia Ziwei Doushu)
  3. O calendário gregoriano (o nosso calendário ocidental moderno)

Começou o ano, mas não só.

O ano chinês divide-se em 12 meses e cada mês divide-se em 2 partes. Os primeiros 15 dias do mês chamam-se “Jié Qì” e os últimos 15 dias do mês chamam-se “Zhong Qì”.

Estas 24 divisões não só têm importância na agricultura, mas também no cultivo interior (métodos de regulação do nosso corpo e mente consoante as mudanças naturais), na Medicina Chinesa e na Metafísica Chinesa.

Ontem começou o Jié Qì chamado “começo da primavera” (立春 Li Chun), ou seja, ontem começou a primavera segundo o calendário solar chinês e o começo da primavera marca o início do mês do tigre (寅 Yin).

Cada mês é regido por um hexagrama conhecido como “hexagrama de flutuação” (Xiao Xi Gua), e o mês do tigre tem por correspondência o hexagrama “a Harmonia” (Tai 泰卦), frequentemente referido na literatura clássica chinesa.

No hexagrama Tai , o trigrama do céu (乾 Qian) aparece no inferior e o trigrama da terra (坤 Kun) está no superior. A imagem é a do qì do céu indo ao encontro da terra e o qì da terra procurado o céu.

A imagem possui um poderoso significado de interação harmoniosa e geradora. É a cópula do céu e da terra.

No Yi Jing (I Ching) o hexagrama é o número 11 e indica:

“A harmonia, o pequeno vai embora e o grande chega. O Sucesso auspicioso.”

泰小往大來吉亨

tai Na secção das “Imagens” pertencente aos comentários das “10 Asas” escritas por Kong Zi (Confúcio) diz:

“A Harmonia (Tai), o pequeno vai embora e o grande chega. O sucesso auspicioso. É o princípio da interação do céu e da terra que comunica as 10000 coisas. A interação do superior e do inferior com a mesma aspiração. No interior o yang e no exterior o yin, no interior a força e no exterior o fluir concordante, no interior o virtuoso e no exterior a pessoa pequena. O caminho do virtuoso cresce e o caminho da pessoa pequena desaparece”

彖曰泰小往大來吉亨則是天地交而萬物通也上下交而其志同也內陽而外陰內健而外順內君子而外小人君子道長小人道消也

O Neijing Suwen, no capítulo 17 “Discussão dos essenciais e das subtilezas dos Vasos (ou Pulso)” (脈要精微論 Mai Yao Jing Wei Lun) refere:

“Por conseguinte nos 45 dias (após) o solstício de inverno, o yang qì ascende ligeiramente e o yin qì desde ligeiramente”

是故冬至四十五日陽氣微上陰氣微下

Este período do ano é o retorno do yáng qì na natureza, mas o yang qì ainda está no interior.

A interação dos qì do céu e da terra do hexagrama “a Harmonia” (Tai) simbolizam o retorno do qì do nascimento da primavera e a retirada do qì do armazenamento do inverno.

Yin (a terra, a mãe) e yang (o céu, o pai) equilibram-se, o yin governa no exterior, mas conserva o poder criador do yang no interior, nesta condição, pode gerar-se algo novo. Um novo ciclo anual pode nascer.

Neste período do ano tudo começa a despertar na natureza, a vida volta a manifestar-se com força crescente e a força luminosa e ascendente do yang retorna.

Como todos os días, é mais uma oportunidade para renascer, mas desta vez, o céu e a terra acompanham-nos no processo.

Até breve!

Sinusite (Bi Yuan) e o Canal Shaoyang

Há umas semanas atendi um estudante de medicina tradicional chinesa. A razão da consulta foi sinusite crónica entre outros desconfortos na região superior do corpo, como asma crónica, tonturas, enjoos e outros desconfortos estomacais que aliviam com protetores gástricos, frio nos pés.

O problema existe há anos, mas nos últimos 7 meses tem-se agravado. Pulso de corda e o pulso de Renying mais forte do que em Cunkou.

Quando chegou a hora de aplicar acupuntura e moxa, usei 7 agulhas, 2 delas nas cavidades (pontos) Xia Xi 俠溪 do canal da vesícula biliar Shaoyang do pé. Após 4 sessões, o estudante está sem sintomatologia mas ficou curioso, por ter utilizado aquela cavidade e perguntou a razão da minha escolha.

Eu respondi que se devia ao meu diagnóstico: calor e qi invertido no canal da vesícula biliar. Ele ficou confuso. E explicou que tinha lido bastante em relação à sinusite e tinha encontrado outras síndromes (vento e calor invadindo o pulmão, humidade, calor no canal Yangming, etc., etc.), mas nunca nada disso.

Expliquei que o fogo ministerial, ao contrário do fogo imperial, sobe pela mão e desce pelo pé. Quando o qi do canal da vesícula biliar se inverte o fogo fica retido no superior, perturbando a descida do qì do pulmão e do estômago, sendo uma das causas da sinusite ou Bi Yuan 鼻淵 na Medicina Chinesa.

Acho que embora a minha explicação justificasse a sua sintomatologia geral, não ajudou a eliminar a confusão… assim que decidi escrever um pouquito deste caso clínico (com autorização dele), mas com alguma informação adicional da literatura médica chinesa 😉 …

O Texto “Si Sheng Xin Yuan” diz:“…o yang turvo do pé desce… a doença do Shaoyang do pé é o não descer. A síndrome de calor no superior relaciona-se sempre com a não descida da madeira de Jia (vesícula biliar), carecendo de relação com os três aquecedores… a raiz do fogo ministerial naturalmente desce e se não desce, e ascende invertido, então a terra de Wu (estômago) tampouco desce… Se a terra de Wu não desce, então o metal de Xin (pulmões) movimenta-se invertido e o qì da colheita perde o seu governo, por isto o fogo ministerial ascende flamejando”

Por este motivo o capítulo 37 das “Perguntas Elementares do Cânone Interno do Imperador Amarelo” (Huang Di Nei Jing Su Wen) refere:

“Quando a vesícula biliar movimenta calor para o cérebro, então a cana do nariz dói e há Bi Yuan. Bi Yuan é a descida incessante de mucosidade nasal turva que ao transmitir-se converte-se em epistaxis e visão turva. A causa de obter (estes sintomas) é a reversão (Jue) do qì”

“膽移熱於腦則辛頞鼻淵鼻淵者濁涕不下止也傳為衄衊瞑目故得之氣厥也”

Neste caso, usei agulhas em Shangxing 上星 (Du23), Hegu 合谷 (Ig4), Taichong 太沖 (F3) e Xiaxi 俠溪 (Vb43) alternando com outras cavidades dos canais Taiyang e Taiyin da mão.

Moxa em Shenting 神庭 (Du24) e Taixi 太溪 (R3).

Usei a fórmula Xiao Chai Hu Pian 小柴胡片 (em comprimidos) do Dr. Zhang Zhong Jing.

O Capítulo Mais Importante do Livro Mais Importante de Medicina Chinesa?

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” (黃帝內經 Huáng dì nèi jīng) nunca deixa de impressionar-nos.

O texto, com aproximadamente 2500 anos, está dividido em duas partes: “As Perguntas Elementares” e “O Eixo do Espírito“, cada uma destas partes possui 81 capítulos. O estilo de escrita deste livro segue a forma tradicional de pergunta e resposta.

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” é considerado o texto mais importante da Medicina Chinesa, e um rico contentor dos princípios da Medicina Chinesa. Durante milénios foi o pilar central do estudo desta disciplina e ainda hoje é um texto de estudo obrigatório nas universidades de Medicina Chinesa na China.

Ao começar a leitura da secção “As Perguntas Elementares”, somos confrontados com o primeiro capítulo chamado “Discussão do Céu e do Genuíno na Antiguidade Remota” (上古天真論 Shàng gǔ tiān zhēn lùn), que também podemos traduzir como “Discussão do Genuíno e da Natureza na Antiguidade Remota”.

O texto começa com uma pergunta do Imperador Amarelo. Uma pergunta tão atual que facilmente poderia ser feita hoje a um especialista em saúde:

“ [O Imperador] perguntou ao Mestre Celestial: ouvi que na antiguidade remota as primaveras e os outonos das pessoas ultrapassavam os cem anos, sem declínio nas suas atividades. Na atualidade as pessoas declinam em todas as suas atividades na metade dos cem anos. A geração atual é diferente? Ou é uma falta na conduta das pessoas?”

O sábio Mestre Daoísta (Taoísta) Qí Bó entrega uma resposta que resume os princípios para alcançar a longevidade, mas também explica a razão do declínio prematuro nas pessoas:

“Qí Bó respondeu: as pessoas da antiguidade remota, conheciam o Caminho (Dào), os princípios de yin e yáng e estavam em harmonia com as artes dos números. Comiam e bebiam com restrições. Eram regulares nas suas vidas diárias. Não trabalhavam absurdamente até o esgotamento, por esta razão podiam [manter] os corpos e os espíritos completos, usando totalmente os seus anos [entregues pelo] céu, estimando-os em mais de cem.

As pessoas da atualidade não são assim. [Para eles] o álcool é como xarope. O absurdo é o regular e entram nas suas recâmaras bêbados, esgotando a suas essências pelo desejo, consumindo e dispersando assim o [qì] genuíno. Desconhecem como manter-se plenos e não guiam os seus espíritos oportunamente, satisfazem rapidamente [os desejos] das suas mentes, contrariando uma vida feliz. As suas vidas diárias carecem de regularidade, por esta razão declinam na metade dos cem anos.

Os ensinamentos dos sábios da antiguidade remota, sempre referiram evitar oportunamente o vazio perverso e o vento pernicioso, e a acalmar placidamente no vazio, para que o qì genuíno seguindo [este estado] guardasse no interior a essência e o espírito. Como [poderão] chegar as doenças assim?

Se a mente se mantém desocupada e com poucos desejos, o coração estará em paz e sem temores. Se há trabalho físico, mas sem esgotamento, o qì seguirá em concordância e cada um dos desejos que se seguem, poderão ser alcançados. Por esta razão estar-se-á satisfeito com os alimentos, não se importará com as suas roupas e contentar-se-á com o simples, sem se impressionar com as altas ou baixas aparências [sociais] e por conseguinte as pessoas chamar-lhe-ão simples (natural). Não serão capazes de esgotar os seus olhos com vícios e desejos, e a obscenidade perversa não poderá perturbar as suas mentes. O estúpido e o sábio, o virtuoso e o não virtuoso não temerão nada, devido a estarem unidos no Caminho (Dào). Por conseguinte a sua idade poderá contar-se em cem anos sem declínio nas suas atividades e as suas virtudes serão completas e sem perigos.”

O texto continua, mas não me canso de ler e reler esta parte, nem de surpreender-me de como a humanidade, com os seus temores e desejos, mudou tão pouco em mais de vinte séculos… nem parece que foi escrito há mais de 2000 anos!

Traduzi-o e quis partilhar convosco.

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