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Caso Clínico: Doença na Bexiga

Alguns estudantes têm-me pedido para escrever sobre casos clínicos, por isso vou partilhar este caso que reflecte muito bem um patomecanismo comum e repetitivo na clínica (durante a leitura podem fazer o exercício lúdico de tentar averiguar o patomecanismo e o método terapêutico 😉 ).

Este caso aconteceu a meados do ano 2014. Numa doente de 31 anos que tinha dado a luz há 13 meses o seu primeiro filho. Os antecedentes clínicos são os seguintes (relatados por ela):

A primeira infecção urinária (e única comprovada analiticamente) foi durante o primeiro trimestre de gravidez. Com sensação de ardor ao urinar. Foi-me administrado um antibiótico que não fazia mal ao bebé (Monuril, duas saquetas). Não tomei remédios para as dores porque fariam mal ao bebé. A partir dos 5 meses comecei a ter sempre desconforto na bexiga, mas foi sempre atribuído ao facto do bebé ter dado a volta e exercer pressão com a cabeça na bexiga. Chegava a ter até alguma incontinência urinária.

Logo no mês após o parto, começaram as dores na bexiga e a perda de sangue na urina. A dor é sempre forte e incapacitante. Parece que existem pedras quentes na bexiga. Há uma sensação de dor e ardor constante. O abdómen fica inchado quando as dores surgem e doi ao toque.

Fui tratada durante 8 meses como se estivesse a ter infecções urináras repetidas. Mas ao fim de 8 meses a médica reencaminhou-me para urologia, porque quando pediu análise à urina, a análise estava estéril, e só havia presença de sangue. 

O urologista fez uma uretrocistoscopia e a citologia estava normal, sem presença de células tumorais. A uretrocistoscopia só revelou que as paredes da bexiga estão muito inflamadas. Receitou-me cloreto de tróspio para provocar relaxamento das paredes da bexiga permite-me tomar brufen ou semelhante se não aguentar as dores, o que tomo todos os dias de 12 em 12 horas.

O meu sono é curto. Acordo normalmente entre as 5h30 e as 6h30 da manhã, independentemente da hora a que me tenha ido deitar, e a partir daí o sono é muito leve. Muitas vezes só permaneço na cama porque deitada é uma posição que me alivia as dores. 

O apetite durante o dia é pouco. Muitas vezes a primeira refeição que tomo é por voltas das 14h ou 15horas, por necessidade de açúcar e não por fome. Tenho alguma vontade de comer doce e algum salgado, e neste momento o picante não me cai bem. Além de achar que me aumenta as dores, fico muitas vezes com dores de estômago e o abdómen superior distendido e com sensação de ardor. 

A urina quando as dores são muito fortes é muito amarela. De resto, quando os medicamentos estão a dar algum efeito a urina é mais clara. Em qualquer das alturas, a urina tem um cheiro forte característico que não sei bem definir. 

…Tenho normalmente os pés frios e húmidos, e as mãos mais quentes do que o usual e rosetas vermelhas nas bochechas. 

Normalmente gosto de bebidas naturais ou quentes, há já alguns meses que me tem sabido muito bem bebidas frias, seja água, leite ou sumos. 

Tenho-me sentido muito cansada ultimamente… A minha memória está muito má. 

Espero ter conseguido explicar bem ao professor como me sinto e os sintomas que tenho tido. Acha que a fitoterapia que me falou me vai ajudar a ficar bem? Desculpe estar ansiosa, mas há tanto meses com dores já me sinto um pouco no desespero

Após a revisão da doente (na recepção do instituto, devido a que só a consegui ver num intervalo entre as aulas), apreciei edema generalizado, face pálida com rubor zigomático e um pulso profundo  e áspero.

Prescrevi 9 doses da seguinte prescrição para fazer decocção:

Huangqi 12g, Baizhu 8g, Yiyiren 8g, Fuling 8g, Zexie 8g, Huashi 8g, Cheqianzi 8g, Shaoyao 8g, Guizhi 8g, Chishao 8g, Taoren 8g, Gancao 6g.

Após alguns dias recebi a seguinte mensagem:

Já vou no segundo pacote de fitoterapia, vou esta noite preparar o terceiro pacote de fitoterapia.

Neste momento não tenho dor na bexiga, só um ligeiro peso… como se não me deixasse esquecer que tenho uma bexiga! Uma das coisa que tenho reparado é que urino em muito maior quantidade muito mais vezes por dia e o edema tem estado a desaparecer. Também a sensação de peso generalizado que tinha no corpo também está muito melhor (depreendo eu que fosse do edema). O cheiro da urina também já é normal e a urina é clara.

Um abraço e mil vezes obrigada por me tratar e eu finalmente estar sem dores! A vida é muito mais bonita assim!

No fim do tratamento a mensagem foi a seguinte:

Há já muito tempo que não tenho qualquer sintoma

🙂

Diagnóstico e Patomecanismo de Medicina Chinesa:

Quando a terra do baço é derrotada, não consegue apoiar a ascensão do qì puro nem controlar a água, pelo que a humidade inunda o inferior.

O fogo ministerial dos 3 aquecedores deve ascender, mas neste caso, sem o apoio da ascensão do baço afunda-se deprimindo-se na bexiga.

A bexiga é a água Ren que precisa de frescura, mas neste caso, contrariamente aquece, afetando a bexiga e a sua transformação do qì.

A falha na ascensão afeta a ascensão do qì do fígado, pelo que o fígado se deprime e não floresce saudavelmente no superior. Nesta condição o fogo ministerial da vesícula biliar se inverte aquecendo o superior também.

Há calor acima e afora (órgãos palácio) e frio no interior (baço e rins).

😉

Agradeço vosso feedback, assim todos aprendemos.

Quando tiver tempo, continuarei partilhando mais casos clínicos.

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