Avaliando o potencial das Estruturas Fundamentais e Dinâmicas no Feng Shui

Olá a todos!

Comecei uma nova etapa numa das turmas de Feng Shui.

Dentro da nossa conversa inicial, apareceu a temática de “o que podemos esperar do Feng Shui”.

Muitas pessoas têm a ilusão de que ao chamar um consultor de Feng Shui, poderão com o “poder e sabedoria” ( 😀 ) do praticante resolver todos os problemas da casa, melhorando a prosperidade, a saúde e os relacionamentos dos moradores.

E isto até pode acontecer, mas é assim tão simples?

O primeiro facto que devemos enfrentar ao pedir uma assessoria de Feng Shui, é que o consultor começará por fazer uma avaliação do “potencial” do local. Alguns fatores simples de se analisar após a avaliação, serão:

A estrutura de qì (energia) fundamental do espaço. Similar ao conceito de “carta astral ou de 4 pilares” na Astrologia Ba Zi, mostra o que existe em potencia nesse espaço, as forças e fraquezas com as que o espaço conta. Dentro das “5 artes” este aspeto envolve uma forte componente da “arte da inspeção” (Xiang) e é a base da “arte da previsão do futuro” (Bu).

A estrutura dinámica do espaço. Similar ao conceito de “pilares da sorte ou grandes ciclos” na Astrologia Ba Zi, que mostra quando as coisas acontecerão e de que forma influenciarão as pessoas que ocupam o local. Dentro das “5 artes” este aspeto envolve uma forte componente da “arte da previsão do futuro” (Bu) e é a base da “arte da inspeção” (Xiang).

As estruturas fundamentais e dinámicas NÃO devem ser confundidas com que uma estrutura pertence a uma escola de Feng Shui e a outra pertence a outra escola de Feng Shui.

Mas a chave está nos termos “avaliar” e “potencial”.

Avaliar permite-nos conhecer as ferramentas com que contamos para potenciar quem somos e para enfrentar o nosso caminho de vida melhor preparados.

O potencial indica as formas em que podemos fazer as coisas para simplificar a caminhada até os nossos objetivos.

Uma vez conhecidos estes aspetos, adquirimos uma ferramenta para compreender parte do nosso passado. Mas também podemos fazer uso mais consciente, dos elementos que o espaço nos brinda para enfrentar a nossa vida. Isto implica muitas vezes ter que aceitar as ferramentas com que contamos e trabalhar para adquirir as adequadas.

Por outra parte, uma vez conhecidos estes aspetos, também podemos modificar conscientemente o que se pode alterar.

Por exemplo, quando de acordo com o Feng Shui, o qì que entra pela nossa porta não favorece os nossos objetivos, e devido a isso usamos uma porta alternativa com um qì mais favorável, estamos a adaptarnos ao potencial do espaço e à natureza.

Por conseguinte, avaliar o potencial das estruturas fundamentais e dinámicas é uma parte importante do Feng Shui.

E por falar nisto, aproveito para partilhar convosco a minha tradução do começo do “Poema das Estrelas Voadoras”, um dos textos clássicos fundamentais do Feng Shui no qual baseio parte do que ensino.

Os oito trigramas circulam ciclicamente


As nove espalham-se no terreno

Observando o que chega, faz-se visível o que vai
 (1)

Procurando no oculto explora-se o segredo


Suportando o próspero e o que nasce


Obtém-se a felicidade suficiente


Encontrando o que declina e o murcho

Se perde o princípio, podendo ser preocupante

A humanidade é o centro do céu e da terra


A origem do infortúnio e a sorte podem ser governadas


No Yi existem mudanças desafortunadas e afortunadas
 (2)

Permitindo preparar estratégias para prevenir e evitar rapidamente [a desgraça]


A pessoa pequena confunde os princípios e age caoticamente
 (3)

Neles o infortúnio é auto-inferido

O virtuoso espera o momento para começar a agir


Procurando a fortuna por si próprio
…

Comentários: (1) O que vem e o que vai são uma forma clássica de referir-se ao futuro (o que vem 來) e ao passado (o que vai 往).

(2) O termo “Yi”, refere-se ao caracter 易, do texto “Yi Jing” (I Ching), base da disciplina de prever o futuro. Literalmente “Yi” pode traduzir-se de 3 formas: mudança, imutável e fácil.

(3) A expressão “pessoa pequena” 小人, indica a pessoa que ignora as leis naturais (princípios do céu e da terra).

Como ser un bom praticante de medicina chinesa… segundo Sun Simiao

Olá a todos,

Encontrei este artigo que tinha escrito algum tempo atrás.

Sun Simiao (dinastia Tang), conhecido na Medicina Chinesa como o “Imperador dos Medicamentos”, explica no seu livro “Prescrições Importantes [Valiosas Como] Mil Peças de Ouro para Emergências” (Bei ji qian jin yao fang) do ano 652 A.D. o que é preciso para ser um bom médico na medicina chinesa.

A sua visão reflecte a necessidade da compreensão profunda da natureza e do ser humano para poder exercer a medicina sem obstáculos.

Espero que desfrutem…

Ah! E nada de deprimir-se depois de ler isto, ok? 😉

1º. Discussão de como deve Agir um Grande Médico no Estudo e na Prática

Todo aquele que deseja ser um grande médico deverá estar familiarizado com [os textos] “Perguntas Elementares“, “Jiǎ Yǐ“, o “Cânone de Acupunctura do Imperador Amarelo” e o “Fluxo e Concentração do Salão Luminoso“.

[Também] deverá estar familiarizado com as teorias] dos 12 vasos dos canais; das 3 regiões e os 9 indicadores; dos 5 órgãos armazéns e os 6 órgãos palácios; do externo e o interno; das cavidades e ter experiência nas raizes e ervas medicinais e em todas as secções das prescrições dos Cânones de Zhang Zhongjing, Wang Shuhe, Ruan Henan, Fan Dongyang, Zhang Miao, Jin Shao, etc.

Também deverá ser hábil na compreensão da fortuna e o destino segundo yin e yáng; nas várias escolas dos métodos de [interpretação] das aparências; nos 5 símbolos das [carapaças] queimadas de tartarugas; nos 6 Ren [do texto] “Zhou yi“.

Deverá ser proficiente desta forma para conseguir ser um grande médico. Se não for assim, será como se carecesse de olhos ou vagueasse na noite e ao agir causará a queda e a morte.

A seguir, deverá estudar com grande atenção estas prescrições, contemplando e ponderando os seus maravilhosos princípios. Só assim poderá falar do caminho da medicina.

Porquê deverá também ler todo tipo de livros?

Porque se não lê os 5 Cânones desconhecerá que existe o caminho da benevolência e da justiça.

Se não lê as 3 Histórias, desconhecerá os assuntos dos passado e da actualidade.

Se não lê os diferentes Mestres, ao analisar os assuntos não poderá compreendê-los silenciosamente.

Se não lê o “Cânone Interior“, desconhecerá a felicidade da virtude da compaixão.

Se não lê a “Zhuang” e a “Lao” será incapaz de dominar e compreender genuinamente os ciclos, ficando restringido pela fortuna e pelo infortúnio no caminho da vida.

Deverá também explorar as subtilezas das pausas e regências dos 5 movimentos e das 7 luminosidades da astronomia.

Se conseguir estudar isto tudo, então o caminho na medicina carecerá de obstáculos e então será perfeito e virtuoso“.

Vale a pena referir que Sun Simiao, também é referido por alguns ocidentais como o “Hipócrates da Medicina Chinesa”, devido ao seu impecável caracter moral e ético.

Caros amigos, vamos continuar a caminhada do estudo que ainda falta muito para chegar lá!

Chegou o Ano Cabra de Madeira Yin (Yi Wei) e a Primavera!!! …A primavera???!

Olá a todos!

Sim, é verdade!

Ontem 4 de Fevereiro começou o ano da Cabra (Wei 未) de Madeira Yin (Yi 乙) segundo o Calendário Solar Chinês. Na China existem 3 formas de calendário:

  1. O calendário solar (usado em Bazi, Fengshui, etc.)
  2. O calendário lunar (usado em astrologia Ziwei Doushu)
  3. O calendário gregoriano (o nosso calendário ocidental moderno)

Começou o ano, mas não só.

O ano chinês divide-se em 12 meses e cada mês divide-se em 2 partes. Os primeiros 15 dias do mês chamam-se “Jié Qì” e os últimos 15 dias do mês chamam-se “Zhong Qì”.

Estas 24 divisões não só têm importância na agricultura, mas também no cultivo interior (métodos de regulação do nosso corpo e mente consoante as mudanças naturais), na Medicina Chinesa e na Metafísica Chinesa.

Ontem começou o Jié Qì chamado “começo da primavera” (立春 Li Chun), ou seja, ontem começou a primavera segundo o calendário solar chinês e o começo da primavera marca o início do mês do tigre (寅 Yin).

Cada mês é regido por um hexagrama conhecido como “hexagrama de flutuação” (Xiao Xi Gua), e o mês do tigre tem por correspondência o hexagrama “a Harmonia” (Tai 泰卦), frequentemente referido na literatura clássica chinesa.

No hexagrama Tai , o trigrama do céu (乾 Qian) aparece no inferior e o trigrama da terra (坤 Kun) está no superior. A imagem é a do qì do céu indo ao encontro da terra e o qì da terra procurado o céu.

A imagem possui um poderoso significado de interação harmoniosa e geradora. É a cópula do céu e da terra.

No Yi Jing (I Ching) o hexagrama é o número 11 e indica:

“A harmonia, o pequeno vai embora e o grande chega. O Sucesso auspicioso.”

泰小往大來吉亨

tai Na secção das “Imagens” pertencente aos comentários das “10 Asas” escritas por Kong Zi (Confúcio) diz:

“A Harmonia (Tai), o pequeno vai embora e o grande chega. O sucesso auspicioso. É o princípio da interação do céu e da terra que comunica as 10000 coisas. A interação do superior e do inferior com a mesma aspiração. No interior o yang e no exterior o yin, no interior a força e no exterior o fluir concordante, no interior o virtuoso e no exterior a pessoa pequena. O caminho do virtuoso cresce e o caminho da pessoa pequena desaparece”

彖曰泰小往大來吉亨則是天地交而萬物通也上下交而其志同也內陽而外陰內健而外順內君子而外小人君子道長小人道消也

O Neijing Suwen, no capítulo 17 “Discussão dos essenciais e das subtilezas dos Vasos (ou Pulso)” (脈要精微論 Mai Yao Jing Wei Lun) refere:

“Por conseguinte nos 45 dias (após) o solstício de inverno, o yang qì ascende ligeiramente e o yin qì desde ligeiramente”

是故冬至四十五日陽氣微上陰氣微下

Este período do ano é o retorno do yáng qì na natureza, mas o yang qì ainda está no interior.

A interação dos qì do céu e da terra do hexagrama “a Harmonia” (Tai) simbolizam o retorno do qì do nascimento da primavera e a retirada do qì do armazenamento do inverno.

Yin (a terra, a mãe) e yang (o céu, o pai) equilibram-se, o yin governa no exterior, mas conserva o poder criador do yang no interior, nesta condição, pode gerar-se algo novo. Um novo ciclo anual pode nascer.

Neste período do ano tudo começa a despertar na natureza, a vida volta a manifestar-se com força crescente e a força luminosa e ascendente do yang retorna.

Como todos os días, é mais uma oportunidade para renascer, mas desta vez, o céu e a terra acompanham-nos no processo.

Até breve!

Sinusite (Bi Yuan) e o Canal Shaoyang

Há umas semanas atendi um estudante de medicina tradicional chinesa. A razão da consulta foi sinusite crónica entre outros desconfortos na região superior do corpo, como asma crónica, tonturas, enjoos e outros desconfortos estomacais que aliviam com protetores gástricos, frio nos pés.

O problema existe há anos, mas nos últimos 7 meses tem-se agravado. Pulso de corda e o pulso de Renying mais forte do que em Cunkou.

Quando chegou a hora de aplicar acupuntura e moxa, usei 7 agulhas, 2 delas nas cavidades (pontos) Xia Xi 俠溪 do canal da vesícula biliar Shaoyang do pé. Após 4 sessões, o estudante está sem sintomatologia mas ficou curioso, por ter utilizado aquela cavidade e perguntou a razão da minha escolha.

Eu respondi que se devia ao meu diagnóstico: calor e qi invertido no canal da vesícula biliar. Ele ficou confuso. E explicou que tinha lido bastante em relação à sinusite e tinha encontrado outras síndromes (vento e calor invadindo o pulmão, humidade, calor no canal Yangming, etc., etc.), mas nunca nada disso.

Expliquei que o fogo ministerial, ao contrário do fogo imperial, sobe pela mão e desce pelo pé. Quando o qi do canal da vesícula biliar se inverte o fogo fica retido no superior, perturbando a descida do qì do pulmão e do estômago, sendo uma das causas da sinusite ou Bi Yuan 鼻淵 na Medicina Chinesa.

Acho que embora a minha explicação justificasse a sua sintomatologia geral, não ajudou a eliminar a confusão… assim que decidi escrever um pouquito deste caso clínico (com autorização dele), mas com alguma informação adicional da literatura médica chinesa 😉 …

O Texto “Si Sheng Xin Yuan” diz:“…o yang turvo do pé desce… a doença do Shaoyang do pé é o não descer. A síndrome de calor no superior relaciona-se sempre com a não descida da madeira de Jia (vesícula biliar), carecendo de relação com os três aquecedores… a raiz do fogo ministerial naturalmente desce e se não desce, e ascende invertido, então a terra de Wu (estômago) tampouco desce… Se a terra de Wu não desce, então o metal de Xin (pulmões) movimenta-se invertido e o qì da colheita perde o seu governo, por isto o fogo ministerial ascende flamejando”

Por este motivo o capítulo 37 das “Perguntas Elementares do Cânone Interno do Imperador Amarelo” (Huang Di Nei Jing Su Wen) refere:

“Quando a vesícula biliar movimenta calor para o cérebro, então a cana do nariz dói e há Bi Yuan. Bi Yuan é a descida incessante de mucosidade nasal turva que ao transmitir-se converte-se em epistaxis e visão turva. A causa de obter (estes sintomas) é a reversão (Jue) do qì”

“膽移熱於腦則辛頞鼻淵鼻淵者濁涕不下止也傳為衄衊瞑目故得之氣厥也”

Neste caso, usei agulhas em Shangxing 上星 (Du23), Hegu 合谷 (Ig4), Taichong 太沖 (F3) e Xiaxi 俠溪 (Vb43) alternando com outras cavidades dos canais Taiyang e Taiyin da mão.

Moxa em Shenting 神庭 (Du24) e Taixi 太溪 (R3).

Usei a fórmula Xiao Chai Hu Pian 小柴胡片 (em comprimidos) do Dr. Zhang Zhong Jing.

A profundidade oculta das cinco fases (5 elementos)

Olá,

Estava a preparar um resumo simples da teoria dos cinco movimentos (wu xing 五行) para os meus estudantes de Astrologia Chinesa Clássica Ba Zi.

O Ba Zi é o estudo dos princípios do destino (ming li), enraizando-se fortemente no fator tempo. Devido a isto decidi referir-me aos movimentos ou elementos, como “fases”. Lembrando o seu carácter cíclico dentro dum processo determinado.

Embora o tópico da discussão seja o método Ba Zi (8 caracteres), senti que partilhar esta pequena parte da discussão poderá ser de algum interesse para os estudantes das diferentes disciplinas chinesas que utilizam o conceito de cinco movimentos, fases ou elementos.

Embora os nomes das fases possam ser discutidos, e eu próprio utilizo outros nomes, mantenho neste artigo a forma mais popular de denomina-las (madeira, fogo, terra, metal e água).

As 5 Fases – interações 1 de 3

Existem diferentes formas de interação entre as 5 fases.

Algumas interações são suaves e com um fluxo natural (shun 順), como por exemplo o fluir das estações. Outras interações são mais agressivas e seguem um movimento oposto ( 逆).

O movimento natural ou concordante (shun), permite que exista uma transformação suave entre as diferentes etapas dum processo, promovendo o crescimento das 5 fases.

Este movimento concordante recebe o nome de “geração mútua das 5 fases” (wu xing xiang sheng 五行相生) ou “mãe – filho”, onde a fase geradora é a mãe (mu 母) e a fase gerada é o filho (zi 子).

A sequência cíclica de geração é: madeira gera fogo > fogo gera terra > terra gera metal > metal gera água > água gera madeira.

Ou seja: madeira > fogo > terra > metal > água > madeira…

wuxing

No processo de transformação em que uma fase gera a outra fase, a fase geradora transmite gradualmente o seu qì à fase gerada. Na transmissão, a fase geradora “perde” (ou transforma) qì.

Por exemplo:

O qì da terra (mãe) gera o qì do metal (filho). Este processo transmite (drena) o qì da terra para o metal. O processo “diminuirá” o qì da terra. Esta diminuição é normal e reflete o movimento de crescimento e decréscimo de yin e yang.

Se o qì da terra for robusto na carta de Ba Zi, então gerar metal será benéfico, permitindo que a terra possa dar nascimento harmoniosamente a um novo tipo de qì, promovendo o movimento cíclico.

A mãe aumenta o qì do filho. Por exemplo:

Um ano com qì de metal (Geng 庚 – Xin 辛) fortalecerá o qì da água (Ren 壬 – Gui 癸) e um mês com qì de madeira (Jia 甲 – Yi 乙) fortalecerá o qì do fogo (Bing 丙 – Ding 丁).

Por outra parte, a filho drenará o qì da mãe, ou seja:

Um ano com qì de metal (Geng 庚 – Xin 辛) drenará o qì da terra (Wu 戊 – Ji 己) e um mês com de madeira (Jia 甲 – Yi 乙) drenará o qì da água (Ren 壬 – Gui 癸).

Se a geração é benéfica ou não dependerá da força das fases geradas o geradoras.

O texto “Yuan Hai Zi Ping”, um dos textos mais importantes da astrologia chinesa clássica, indica a condição em que a mãe demasiado forte prejudica o filho:

火賴木生              木多火烈

木賴水生              水多木漂

O fogo depende da geração da madeira. Se a madeira é demasiada, então extinguirá o fogo.

A madeira depende da geração da água. Se a água é demasiada, então a madeira flutuará.

Outra passagem do texto, refere a situação em que o filho demasiado forte prejudica a mãe:

水能生木              木多水縮

木能生火              火多木焚

A água pode gerar a madeira. Se a madeira for demasiada, a água diminuirá

A madeira pode gerar o fogo. Se o fogo for demasiado a madeira arderá

Finalmente o mesmo texto indica a condição em que a mãe forte, se beneficia com a geração do filho:

強水得木              方泄其氣

強木得火              方化其頑

Quando a água forte obtém madeira, pode drenar o seu qì

Quando a madeira forte obtém fogo, pode transformar a sua rigidez

Embora os cinco movimentos possuam formas de auto-regulação (discutirei depois esta temática), como as interações de “restrição e transformação” (zhi hua 制花) e “supremacia e retaliação ou recuperação” (sheng fu 勝復), não devemos aplicar direta e rigidamente as leis de geração e de controlo, devendo sempre avaliar cada condição tendo em mente a procura do equilíbrio.

Os cinco movimentos, são simples em aparência, mas não devemos esquecer que cada fase divide-se em dois e posteriormente em 12 formas diferentes.

Na medicina chinesa as 12 variações das cinco fases aprecia-se nas cavidade (pontos) shu, no Feng Shui apreciasse em cada método aplicado, e impregna cada disciplina tradicional chinesa, quando estudada em profundidade… Lá está outra parte da beleza do sistema.

Até breve!

O Capítulo Mais Importante do Livro Mais Importante de Medicina Chinesa?

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” (黃帝內經 Huáng dì nèi jīng) nunca deixa de impressionar-nos.

O texto, com aproximadamente 2500 anos, está dividido em duas partes: “As Perguntas Elementares” e “O Eixo do Espírito“, cada uma destas partes possui 81 capítulos. O estilo de escrita deste livro segue a forma tradicional de pergunta e resposta.

O “Cânone Interno do Imperador Amarelo” é considerado o texto mais importante da Medicina Chinesa, e um rico contentor dos princípios da Medicina Chinesa. Durante milénios foi o pilar central do estudo desta disciplina e ainda hoje é um texto de estudo obrigatório nas universidades de Medicina Chinesa na China.

Ao começar a leitura da secção “As Perguntas Elementares”, somos confrontados com o primeiro capítulo chamado “Discussão do Céu e do Genuíno na Antiguidade Remota” (上古天真論 Shàng gǔ tiān zhēn lùn), que também podemos traduzir como “Discussão do Genuíno e da Natureza na Antiguidade Remota”.

O texto começa com uma pergunta do Imperador Amarelo. Uma pergunta tão atual que facilmente poderia ser feita hoje a um especialista em saúde:

“ [O Imperador] perguntou ao Mestre Celestial: ouvi que na antiguidade remota as primaveras e os outonos das pessoas ultrapassavam os cem anos, sem declínio nas suas atividades. Na atualidade as pessoas declinam em todas as suas atividades na metade dos cem anos. A geração atual é diferente? Ou é uma falta na conduta das pessoas?”

O sábio Mestre Daoísta (Taoísta) Qí Bó entrega uma resposta que resume os princípios para alcançar a longevidade, mas também explica a razão do declínio prematuro nas pessoas:

“Qí Bó respondeu: as pessoas da antiguidade remota, conheciam o Caminho (Dào), os princípios de yin e yáng e estavam em harmonia com as artes dos números. Comiam e bebiam com restrições. Eram regulares nas suas vidas diárias. Não trabalhavam absurdamente até o esgotamento, por esta razão podiam [manter] os corpos e os espíritos completos, usando totalmente os seus anos [entregues pelo] céu, estimando-os em mais de cem.

As pessoas da atualidade não são assim. [Para eles] o álcool é como xarope. O absurdo é o regular e entram nas suas recâmaras bêbados, esgotando a suas essências pelo desejo, consumindo e dispersando assim o [qì] genuíno. Desconhecem como manter-se plenos e não guiam os seus espíritos oportunamente, satisfazem rapidamente [os desejos] das suas mentes, contrariando uma vida feliz. As suas vidas diárias carecem de regularidade, por esta razão declinam na metade dos cem anos.

Os ensinamentos dos sábios da antiguidade remota, sempre referiram evitar oportunamente o vazio perverso e o vento pernicioso, e a acalmar placidamente no vazio, para que o qì genuíno seguindo [este estado] guardasse no interior a essência e o espírito. Como [poderão] chegar as doenças assim?

Se a mente se mantém desocupada e com poucos desejos, o coração estará em paz e sem temores. Se há trabalho físico, mas sem esgotamento, o qì seguirá em concordância e cada um dos desejos que se seguem, poderão ser alcançados. Por esta razão estar-se-á satisfeito com os alimentos, não se importará com as suas roupas e contentar-se-á com o simples, sem se impressionar com as altas ou baixas aparências [sociais] e por conseguinte as pessoas chamar-lhe-ão simples (natural). Não serão capazes de esgotar os seus olhos com vícios e desejos, e a obscenidade perversa não poderá perturbar as suas mentes. O estúpido e o sábio, o virtuoso e o não virtuoso não temerão nada, devido a estarem unidos no Caminho (Dào). Por conseguinte a sua idade poderá contar-se em cem anos sem declínio nas suas atividades e as suas virtudes serão completas e sem perigos.”

O texto continua, mas não me canso de ler e reler esta parte, nem de surpreender-me de como a humanidade, com os seus temores e desejos, mudou tão pouco em mais de vinte séculos… nem parece que foi escrito há mais de 2000 anos!

Traduzi-o e quis partilhar convosco.

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Doenças no Aspeto do Qì e do Sangue

Hoje “causalmente” cheguei a esta página do livro “Perguntas e Respostas sobre Agulhas (acupuntura) e Moxabustão” (Zhēn jiǔ wèn duì).

Gosto da forma como o médico Zhù Jī  注機 (autor do texto) da dinastia Ming, explica a acupuntura. A forma como questiona as eternas dúvidas do acupuntor e como tenta responder apoiando-se na sua compreensão dos Cânones.

Em relação à diversidade na interpretação da aplicação da acupunctura clássica, sempre concordaremos e discordaremos em alguns pontos. No entanto, acho que ouvir diferentes opiniões em relação a um mesmo tema, em quanto estudamos as “fontes originais” é um exercício extremamente saudável e nutritivo, que nos mantém flexíveis.

Nesta pergunta e resposta, a forma tradicional de aprendizagem, o médico  Zhù Jī discute as diferencias nas doenças relacionadas com o qì e com o sangue, exemplificando 2 tipos de doenças.

Começa com as “acumulações e massas” (積塊 jī kuài), como exemplo da expressão nas doenças internas quando o problema está associado ao qì e ao sangue.

Também se exemplifica através das “doenças de vento” (病風 bìng fēng) ou doença de “obstrução” (痺 ), como o representante das doenças no yang.

Finalmente, o texto explica o método de tratamento para cada caso.

Espero que desfrutem:

Alguns dizem: existem as doenças que estão no aspeto do qì e as que estão no aspeto do sangue. Desconheço se os especialistas em agulhas também [aplicam] a divisão [dos aspetos] do qì e do sangue?

Resposta: os especialistas em agulhas também deveriam conhecer os aspetos do qì e do sangue das doenças.

Quando a doença está no aspeto do qì, [os sintomas da doença] possuem movimentos indefinidos. Quando a doença está no aspeto do sangue [os sintomas da doença] são profundos, fixos, sem se deslocarem.

Se falamos nas acumulações e massas, se sobem ou descem dentro do abdómen, ou se estão e [alternadamente] não estão, então são [doenças] do aspeto do qì. Se estão em ambas regiões costais inferiores (hipocôndrios), ou debaixo do coração, ou acima, debaixo, a esquerda ou direita do umbigo, fixas e sem se deslocarem, crescem gradualmente, então são [doenças] da divisão do sangue.

Se falamos nas doenças por vento, se [os sintomas da doença] estão no pé esquerdo, deslocando-se para o pé direito, ou se [os sintomas da doença] estão na mão direita, deslocando-se para a mão esquerda e o movimento é irregular, então são do aspeto do qì. Se regularmente [os sintomas da doença] estão no pé esquerdo ou a tendência [para o aparecimento dos sintomas] está na mão direita, sendo fixos e sem se movimentarem, então são do aspeto do sangue.

As doenças são sempre assim. Deve saber que se a doença no aspeto do qì está no superior, então deve selecionar o inferior [para tratar] e se a doença está no inferior, então deve selecionar o superior [para tratar]. Se [a doença] está na esquerda, selecione a direita e se está na direita selecione a esquerda. Se está no aspeto do sangue, de acordo com o local do sangue, selecione em resposta à doença.

Se na doença do sangue descuidadamente drena o qì ou se na doença do qì drena o sangue, será o que chamamos “castigar e atacar o carente de excesso”, [neste caso] a quem deverá retornar o castigo?”

O que acharam?

Até breve!

* Para os estudantes de língua chinesa: a imagem acima contém o texto da pergunta e resposta em chinês.

Pensamentos em Noites Silenciosas 靜夜思 do Poeta Li Bai

Li Bai (Li Po) é um dos poetas mais importantes da dinastia Tang, aqui num dos meus poemas favoritos…

 

靜夜思 Jìng Yè Sī
Pensamientos en Noches Silenciosas / Pensamentos em Noites Silenciosas

床前明月光 Chuáng qián míng yuè guāng

Adelante de la cama, la luna brillando / Frente à cama, a lua a brilhar

疑是地上霜 Yí shì dì shàng shuāng

Dudo si será la tierra escarchando / Duvido se será a terra a gear.

舉頭望明月 Jǔ tóu wàng míng yu

Levanto mi cabeza mirando la luz de la luna / Levanto a cabeça olhando o brilho da lua

低頭思故鄉 Dī tòu sī gù xiāng

Bajo mi cabeza y pienso en mi tierra natal… / Baixo a cabeça e penso na minha terra natal…

Li Bai (Siglo / século VIII)

O Feng Shui Clássico em Termos Muito Simples

O Feng Shui 風水, literalmente “vento e água” é uma das disciplinas mais antigas da metafísica chinesa.

Dentro das 5 artes tradicionais, pertence ao método de Xiang, o conhecimento do fundamento interno através das manifestações externas e ao método de Bu, adivinhação.

O Feng Shui é o estudo dos padrões do qi na natureza e como conhece-los para potenciar a nossa vida e dos nossos seres queridos.

O qi, normalmente traduzido (de forma não muito rigorosa) como “energia”,  é a componente básica de tudo quanto existe no Universo e possui como propriedade o movimento.

Os movimentos do qi são basicamente a acumulação (matéria), que cria o mundo tangível e a dispersão (qi) que cria o mundo intangível.

O estudo dos padrões tangíveis é realizado pela Escola do Método da Forma. Esta escola se concentra na compreensão e classificação das montanhas e rios e de tudo o que puder ser observado, incluindo os modelos urbanos a grande e pequena escala, o desenho arquitectónico e interior da vivenda, local de trabalho, ou qualquer espaço urbano ou rural.

O estudo dos padrões intangíveis é levado a cabo pela Escola dos Princípios do . Esta escola tem por objectivo investigar e descobrir as estruturas intangíveis do , que regem a distribuição e combinação dos diferentes tipos de forças naturais () presentes num espaço e que afectam profundamente a vida das pessoas.

Esta investigação dos padrões intangíveis é realizada com a ajuda do instrumento principal de qualquer praticante de Feng Shui, a bússola (Luo pan), o conhecimento e a experiência do praticante de Feng Shui.

Através dos séculos, desenvolveram-se diferentes métodos auxiliares para uma prática eficiente do Feng Shui, tais como os métodos de água e a selecção de datas favoráveis.

O Feng Shui também é conhecido com o nome de “Feng Shui Clássico” devido a que muito do seu profundo conhecimento procede da antiga literatura clássica chinesa.

Muitos destes valiosos textos antigos têm sido traduzidos ao português no IEETC e são estudados nos nossos Cursos Profissionais de Feng Shui.

O Feng Shui, não tem muito a ver com pendurar talismãs, colocar estátuas de animais ou fazer que a nossa casa tenha o aspecto dum templo chinês. O Feng Shui é simplesmente o estudo do qi e da relação entre o ser humano e a natureza.

Esta compreensão pode ajudar-mos a perceber como a envolvente influi favorável ou prejudicialmente as actividades humanas. Permitindo-nos tirar o melhor partido ao ambiente que nos rodeia.

O conhecimento do Feng Shui também permitir-nos-á uma melhor adaptação aos diferentes factores externos e por último, capacitar-nos-á para a modificação harmoniosa da nossa envolvente para conseguir uma vida mais harmoniosa e feliz.

A Medicina Chinesa e as Três Forças 三才 (em palavras simples)

A Medicina Chinesa, é uma das 4 medicinas tradicionais reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde. No entanto o que conhecemos como Medicina Tradicional Chinesa, é um modelo relativamente moderno, sistematizado durante a segunda metade do século XX, a partir de alguns princípios da Medicina Chinesa.

Com uma história de mais de 2500 anos, a Medicina Chinesa tem desenvolvido ao longo dos séculos uma forma única de ver o ser humano, interagindo continuamente com as forças da natureza, denominadas: “(energias) do céu e da terra“.

As forças do céu são fortemente determinadas pelos movimentos cíclicos dos corpos celestes, dos que se derivam a medição do tempo, e as diferencias climáticas.

As forças da terra são determinadas pela influência das caraterísticas do espaço, que influencia a qualidade da terra e da água e as suas manifestações na paisagem e na qualidade da nossa alimentação, entre outros aspetos.

Por conseguinte, a vida humana está submetida às contínuas influências do tempo e do espaço.

Em base a este paradigma, a Medicina Chinesa cria um completo modelo da fisiologia e patologia humana diretamente relacionado com as forças do céu, da terra e da humanidade.

Um modelo que considera o qì do céu como seis qì (六氣 liu qi) expressados em forças climáticas cíclicas. Estes ciclos podem ser regulares (主氣 zhu qì) ou irregulares (客氣 ke qi). Cada um destes qì rege as forças do céu durante dois meses no ano, resultando em forças que afetam de diversas maneiras a nossa fisiologia.

O qì da terra, se expressa como cinco fases cíclicas (五運 wu yun) do qì. Manifestando-se como quatro direções à volta do qì central. Estas cinco manifestações se relacionam com os diferentes fenómenos naturais, criando cinco sistemas que categorizam e abrangem as estações do ano, as direções, cores, sabores, cheiros, etc. associando-se aos 6 qì do céu.

O qì humano, representa as influências da nossa sociedade e cultura. A forma em que nos afetam o relacionamento com os outros e com nos próprios. Também se inclui nesta parte a constituição física e funcional do indivíduo. Isto tudo pertence ao qì do homem.

Desde a perspetiva da Medicina Chinesa, a compreensão da saúde e da doença só pode ser alcançada integrando estas três grandes influências do céu, da terra e da humanidade.

E é sobe esta visão que a Medicina Chinesa estabelece o conceito de saúde como “o equilíbrio de yin e yang”. A pessoa saudável é chamada de “pessoa equilibrada” (平人 ping ren), sendo alguém capaz de conservar a normalidade das funções vitais, conseguindo adaptar-se as contínuas mudanças internas e externas.

Este conceito gera um completo modelo da fisiologia humana e métodos de cultivo da saúde.

Mas sobe esta mesma perspetiva, também deduz um modelo onde a doença, é a incapacidade de manter o equilíbrio de yin e yang, ou seja a incapacidade de preservar o equilíbrio entre as diferentes funciones vitais e os tecidos orgânicos. A incapacidade de manter o equilíbrio entre o corpo ou a “essência” e o espírito.

Esta visão da origem aos métodos de diagnóstico e prognóstico, aos princípios de geração e transmissão das doenças e as formas de tratamento que visam recuperar a normal interação do individuo com as forças do céu, da terra e da humanidade no exterior. No interior permitem que o fluxo normal das funções orgânicas e estruturais (機 ji) se preserve.